Adelto Gonçalves
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Política com ética. É possível? (*) ---->
RESENHA
Adelto Gonçalves

I

Se levarmos ao pé da letra uma assertiva do poeta, tradutor, diplomata e pensador mexicano Octavio Paz (1914-1998), Prêmio Nobel de Literatura de 1990, segundo a qual “política é poder e o poder é impuro”´, não há como discutir Ética e Política, pois uma palavra seria antagônica a outra. A partir dessa premissa, nenhum homem de bem poderia pensar em dar passos na política, pois essa prática equivaleria a adentrar num lamaçal e manchar a sua honra. Mas, se todos os homens de bem se afastassem com a mão no nariz dos bastidores da política, com certeza, estaríamos condenados a ser governados pelos piores elementos da espécie. Não foi isso que mostrou o século XX e mostra este começo de século XXI?

No entanto, sem cair no niilismo, é possível discutir “Ética e Política no mundo contemporâneo”, como provam os ensaios, artigos e resenhas reunidos sob esse tema pela revista Estudos Filosóficos, do Departamento de Filosofia e Métodos (Dfime), da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), de Minas Gerais, em seu nº 6, de janeiro-junho de 2011. No estudo “Estado e Nação no pensamento de Ortega y Gasset”, por exemplo, José Maurício de Carvalho, professor titular da UFSJ e doutor em Filosofia pela Universidade Gama Filho, do Rio de Janeiro, procura examinar o significado do pensamento do filósofo espanhol exposto a uma época em que a Espanha vivia numa encruzilhada que a tornava condenada a viver o terror da direita ou o terror da esquerda.

Para Ortega y Gasset (1883-1955), se o Estado espanhol daqueles anos 30 precisava passar por uma reforma, essa não podia nascer de revoluções violentas, como aquela que ocorrera na Rússia em 1917 ou gestava-se na Alemanha de então a partir do ovo da serpente hitlerista. No pensamento do filósofo espanhol, o resultado das revoluções é a revolta e ela não provoca transformações profundas no tecido social, isto é, não compromete os cidadãos com as modificações na sociedade, lembra Carvalho, citando “Puntos esenciales” (1931), trabalho de Ortega y Gasset. “As mudanças importantes na vida social necessitam do consentimento e da adesão livre do cidadão”, dizia o filósofo espanhol. Em outras palavras, as revoluções pouco favorecem a reorganização social, “pois transformações só são consistentes em política quando chegam sem o uso da força e convencem pessoas”.



II

No ensaio “Em diálogo com as filosofias políticas de Hannah Arendt e Leo Strauss”, os professores Emília Agnes Assis de Lima, da Faculdade Cenecista de Sete Lagoas-MG, mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e Fábio Abreu dos Passos, do Instituto Presidente Tancredo de Almeida Neves (IPTAN), de São João del-Rei-MG, doutor em Filosofia pela UFMG, analisam as influências que Hannah Arendt e Leo Strauss sofreram da época em que se formaram – ou seja, a experiência política da República de Weimar (1919-1933), seu fracasso e a ascensão do nazismo – bem como as respectivas voltas que empreenderam em pensamento à Grécia antiga.

Os autores lembram que contra a ideia do senso comum de que a política é uma teia de velhacaria, tecida a partir de interesses próprios e mesquinhos, e que a política é apenas um meio para a conservação e fomento da vida em sociedade, conforme o pensamento de Hannah Arendt (1906-1975), há o paradigma da polis grega segundo o qual a política é erigida com o intuito de preservar a memória dos fatos e palavras daqueles que se aventuravam a adentrar o espaço público, paradigma que, de certa forma, aproxima as filosofias de Hannah Arent e Leo Strauss (1899-1973).

Como se sabe, a polis grega era um espaço no qual cada indivíduo podia manifestar aos demais ouvintes como o mundo aparecia para ele, ou seja, podia colocar o seu ponto de vista, que podia entrar em conflito ou em concordância com os demais, sem, contudo, anular-se ou submeter-se. Para Arendt, a pluralidade de opiniões era a “lei da terra”. Sem esse espaço público, não haveria possibilidade de vida saudável.

A partir daí, os autores concluem que Arendt e Strauss radicalmente desaprovam os fundamentos da democracia moderna e que, ambos, cada um a seu modo, fazem da antiguidade grega e de sua experiência política no âmago da polis um referencial para se pensar os “tempos sombrios” e para apontar os verdadeiros fundamentos da “dignidade política”. Ao mesmo tempo, os dois filósofos percebem na modernidade uma manipulação e uma sujeição da opinião à construção de ideologias, “pois se a opinião pública é manipulada, não há filosofia política, pois é dela que nasce a filosofia política”. Ou seja, é pela opinião que se manifesta como o mundo aparece para cada um.


III

Já no ensaio “Espaço público, política e ação comunicativa a partir da concepção habermasiana”, os professores Luiz Ademir de Oliveira, da UFSJ, doutor em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), e Adélia Barroso Fernandes, do Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH), doutoranda em Linguistíca pela UFMG, discutem o pensamento do filósofo Jürgen Habermas (1929), especialmente a sua teoria da ação comunicativa, de 1981, que representa uma ruptura com o pensamento da Escola de Frankfurt, da qual o pensador alemão era considerado um dos herdeiros.

Os professores lembram que, para Habermas, a decadência da esfera pública está associada à consolidação do capitalismo e à emergência de grandes conglomerados de comunicação de massa. Foi a partir da hegemonia da burguesia que o capitalismo passou, sob o domínio das grandes empresas, a forçar o Estado a intervir no setor privado, a favor da economia de mercado. De fato, há poucos anos, não havia dia em que os editoriais de grandes jornais brasileiros não defendessem um Estado cada vez menos intervencionista, deixando que as forças do mercado agissem livremente.

Hoje, já não é assim. Cada vez mais o mercado livre tem sido substituído por mercados oligopolizados, com a ampliação das diferenças sociais entre proprietários e assalariados. Até mesmo a privatização que sempre foi considerada uma panaceia contra o inchaço do Estado, hoje, na verdade, representa mais a tomada de bens públicos por pequenos grupos privados, tal como aconteceu na Rússia pós-soviética, ou seja, a usurpação de bens públicos para atender a interesses privados.

De qualquer modo, essa prática não deixa de ser vista como dos males o menor, já que o contrário é a apropriação de empresas públicas por partidos políticos ou por lideranças oriundas do movimento sindical, com o loteamento de cargos por pessoas desqualificadas, de baixa escolaridade, que se enquistam nessas organizações só para promover a corrupção em benefício próprio e de seus mentores, na maioria políticos profissionais. Isso só poderá ser superado quando deixarem de existir os chamados “cargos de confiança” e suas funções passarem a ser desempenhadas por profissionais aprovados em concurso públicos acima de quaisquer suspeitas.

Com a privatização, o que se constata é que, negociada a empresa pública com grupos privados, a partir desse processo, a corrupção desaparece, ainda que a transferência sempre deixe um rastro de suspeitas quanto a possíveis comissões gordas depositadas em paraísos fiscais ou na Suíça. De qualquer modo, o consolo que fica para o cidadão de bem é que essa será sempre a última vez que se vai ouvir falar de corrupção com dinheiro público ao menos naquela empresa. A partir daí, o problema, se corrupção houver, passará a ser assunto exclusivo dos novos proprietários, ou seja, de grupos privados.

Diante disso, como bem observam os autores do ensaio, com base no pensamento de Habermas, surge o conceito de sociedade civil como saída para a reconstrução da solidariedade entre os grupos sociais. Composta por movimentos e organizações livres não-estatais e não-econômicas, a sociedade civil não quer o poder, mas tentar influenciar as instâncias do poder e a esfera pública geral, em favor dos menos favorecidos.

Obviamente, toda organização humana é sempre susceptível à corrupção, como mostra o envolvimento das chamadas organizações não-governamentais (ONGs) com a corrupção do Estado, muitas delas criadas por políticos astutos apenas com o intuito de promover o desvio de recursos previstos em orçamentos públicos. Seja como for, como dizem os autores do ensaio, os argumentos teóricos e conceituais de Habermas permitem mais bem compreender “as novas configurações sociais e os embates travados entre o mundo sistêmico e o mundo da vida”.


IV

Além destes três ensaios, o dossiê “Ética e Política no mundo contemporâneo” traz mais cinco estudos que analisam não só o crescimento da força do Estado nos últimos anos como a questão da ação política e da constituição da esfera pública, contribuindo para uma reflexão filosófica que procura compreender as relações humanas e os enigmas que costumam produzir. Por tudo isso, este número 6 da revista Estudos Filosóficos torna-se imperdível e deveria fazer parte de toda biblioteca universitária do mundo lusófono pública ou privada.

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ESTUDOS FILOSÓFICOS, Revista do Departamento de Filosofia e Métodos da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ)/ Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de Minas Gerais (Fapemig). São João del-Rei-Minas Gerais, nº 6, janeiro-junho de 2011, 332 págs. ISSN: 1982-9124. E-mail: dfime@ufsj.edu.br
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Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br

(*) Publicado na Revista Saberes Interdisciplinares, do Instituto de Ensino Superior Presidente Tancredo de Almeida Neves, de São João del-Rei-MH, nº 9, p. 147-153, jan.-jun.2012.
 

O feminismo negro de Paulina Chiziane (*) ---->
ENSAIO
Adelto Gonçalves
Para João Craveirinha, pela amizade e
pelos subsídios fornecidos para este ensaio.

I

Se a literatura escrita por mulheres já é um mundo diferente, abordado por ângulos que romancistas e contistas homens dificilmente vêem, imaginemos, então, o que pode ser o mundo visto por uma mulher africana, moçambicana, ainda mais se é governado por costumes e tradições que nos soam estranhos. Esse estranho e mágico mundo é o que oferece em seus livros Paulina Chiziane (1955), a primeira romancista negra de Moçambique.

Diz-se aqui primeira romancista negra porque não seria correto chamá-la de primeira escritora moçambicana, pois Lília Momplê (1935), nascida na Ilha de Moçambique, autora de livros de contos e de uma biografia, professora, funcionária da Unesco e ex-secretária-geral da Associação dos Escritores Moçambicanos, apareceu antes dela, já à época pós-Independência. E é provável que haja outras moçambicanas autoras de livros. Acontece que Lília Momplê, descendente de macua, é mestiça, carregando sangue europeu nas veias. E, se o critério for o de uma suposta africanidade, Paulina seria a primeira negra escritora de Moçambique, mas definitivamente não é a primeira moçambicana escritora.

É claro que estes “divisionismos cromáticos” não levam a nada, até porque ninguém seria mais ou menos moçambicano por causa da cor da pele. Seja como for, o que se sabe é que na sociedade moçambicana destes dias há duas versões para esta questão: uma para consumo interno (que nem todos são tão escuros) e outra para consumo externo (mais abrangente).

Isto sem contar certos "paternalismos colonialistas" que levam escritores de Moçambique e Angola, com raízes mais européias do que afrobanto, a encontrar melhor recepção na indústria editorial, além de maior divulgação pelos meios de comunicação da antiga metrópole e do Brasil. Ou será que é só por falta de informação ou coincidência que na universidade brasileira, durante encontros sobre literatura africana de expressão portuguesa, só se fala em Mia Couto (1955), José Eduardo Agualusa (1960) e Pepetela (1941)?

Afinal, não se pode dizer que Paulina Chiziane seria desconhecida no Brasil. De Paulina, a Companhia das Letras, de São Paulo, em 2004, lançou o romance Niketche. Uma história de poligamia, que a Editorial Caminho, de Lisboa, publicou em 2002, enquanto seus outros livros ainda aguardam a boa vontade de algum editor brasileiro.

Nascida em Manjacaze, na província de Gaza, ao Sul de Moçambique, Paulina viveu no campo até os sete anos, quando se mudou para os subúrbios da cidade de Maputo, onde freqüentou estudos superiores de Lingüística na Universidade Eduardo Mondlane, sem concluí-los. Nasceu numa família protestante onde se falavam as línguas chope e ronga.

No campo falava a sua língua materna, o chope, e, quando se mudou para a cidade, teve de aprender o português na escola, enquanto era obrigada nas ruas a falar o ronga, a língua nativa de Maputo. “Sou chope, o meu pai era alfaiate de esquina, só depois arranjou uma barraca. A minha mãe sempre foi camponesa, às vezes ficava uma semana sem vir à casa, a tratar da machamba (plantação de mandioca)”. A voz da escritora moçambicana Paulina Chiziane é serena, mas o orgulho das origens é indisfarçável.

Aprendeu a língua portuguesa na escola da missão católica. Aos 20 anos, cantou o hino da independência moçambicana, gritou contra o imperialismo e o colonialismo e, depois, com a guerra civil (1975-1992) que arrasou o país, desencantou-se. Por isso, os seus livros nem sempre falam diretamente da guerra, mas de um país destruído, da miséria de seu povo, da superstição, dos rituais religiosos e da morte.

Participou ativamente da vida política de Moçambique como membro da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), na qual militou durante a juventude, tendo sido eleita nas primeiras eleições multipartidárias em 1994. Mas trocou a vida partidária para se dedicar à escrita, ao trabalho na Cruz Vermelha e à publicação das suas obras, provavelmente, desiludida com o machismo que ainda marca as relações políticas no país.

II

Em seu último livro, O alegre canto da perdiz (2008), além dessas questões que marcam a secular submissão da mulher ao universo do homem em certas sociedades africanas, Paulina leva o leitor a confrontar-se também com a questão do reducionismo praticado por quem olha a África de fora e procura apresentar a sua História e sua Literatura como se o continente africano se tratasse de um só país, tal como denunciou a escritora nigeriana Chimamanda Adichie (1977) em seu discurso contra o perigo de se ouvir e repetir uma história única, a dos vencedores. (ADICHIE, 2009).

Como muito bem observa Nataniel Ngomane, doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) e professor da Universidade Eduardo Mondlane, no posfácio que escreveu para este livro, Paulina, se não é a primeira, com certeza, é a voz que mais alto se eleva hoje para recuperar temas “esquecidos” por aqueles autores africanos de expressão portuguesa cujas raízes remontam ao colonialismo – ainda que sejam críticos ou tenham lutado contra o colonialismo –, ao aflorar temas como o racismo, a assimilação, a subjugação de valores africanos aos valores europeus, a poligamia, as relações de subserviência não só no lar, mas entre nações e grupos étnicos.

Como o fizera em Balada de amor ao vento (1990), seu livro de estréia, com Sarnau, em Ventos do apocalipse (1999), com Minosse e Wusheni, em O sétimo juramento (2000), com Vera, e em Niketche (2002), com Rami, mulheres que vão à luta, em O alegre canto da perdiz, Paulina apresenta Serafina, Delfina, Maria das Dores e Maria Jacinta, uma geração de avó, filha e netas, personagens metonímicas que se desdobram e mostram os conflitos da sociedade na Zambézia, província moçambicana do Centro-Norte, onde a autora vive há largos anos.

A metáfora unificadora deste livro está em que a Zambézia seria o centro do cosmos, com os Montes Namuli como o ventre do mundo ou o berço da Humanidade. E isso vem oportunamente ao encontro de uma investigação genética mundial hoje em curso denominada “The Genographic Project”, da revista National Geographic, em parceria com a IBM, que aponta que a espécie humana saiu de um tronco comum africano e que o que existe hoje no mundo – e que, no passado, chamávamos de “raças” – são variantes de uma marca genética comum.

Dessa forma, os atuais moçambicanos, independentemente de que nação sejam, segundo essas pesquisas, seriam do haplogrupo L0 do tipo mtDNA ( mt de linhagem mitocondrial), que teria surgido há cerca de 100 mil anos na África Oriental, expandindo-se para o Oeste e o Sul e mesmo para fora de África. Surpreendente é o fato detectado de que partilhamos uma linhagem comum, ou seja, não seriam necessários mais que 20 mil anos para que africanos mais escuros e de olhos pretos se tornassem europeus nórdicos muito mais claros e de olhos azuis e vice-versa. “Toda a raça humana é mestiça de cruzamentos híbridos muito antigos”. (CRAVEIRINHA, 2005, pp.103-104).

A partir da reconstrução desse mito – que, agora, começa a ganhar bases científicas –, Paulina reconstitui também o mito da origem matricial do mundo. E por que a Zambézia? É que essa é a região africana em que se deu com maior intensidade a miscigenação, a ponto de ser conhecida como o Brasil da África.

Ao revisitar os mitos da origem matricial, Paulina repete o que o antropólogo cubano Fernando Ortiz (1881-1969), com base nas idéias do antropólogo polonês Bronislaw Malinowski (1884-1942), batizou de transculturação, vocábulo que mais bem expressa as diferentes fases do processo transitório de uma cultura para outra, pois esta não consiste em apenas adquirir uma distinta cultura, que a rigor é o que o termo anglo-americano acculturation significa com toda a soberba de quem o cunhou, mas o processo implica necessariamente a perda de uma cultura precedente, ou seja, uma parcial desculturação, e significa a criação de novos fenômenos culturais (ORTIZ, 1973, pp.134-135).

Em outras palavras: não há aculturados, no sentido da perda de uma cultura própria substituída pela do colonizador (e no sentido africano o colonizador aqui não é só europeu, mas refere-se também a povos africanos e outros que colonizaram e subjugaram povos africanos, vendendo-os aos traficantes europeus). É o que se pode compreender melhor nas palavras do escritor peruano José María Arguedas (1911-1969), igualmente antropólogo: “Não sou um aculturado: sou um peruano que orgulhosamente, como um demônio feliz, fala em cristão e em índio, em espanhol e em quechua”. (ARGUEDAS, 1975, p.282).

O drama da África passa exatamente pelo que outros povos fizeram dela, o que não significa que se o continente tivesse continuado isolado, teria tido um futuro melhor. Um drama que Paulina soube como ninguém resumir nestas linhas de O alegre canto da perdiz:
“As mães gostam de dar aos filhos nomes de fantasia. Nomes de passageiros, de vagabundos. Os negros converteram-se. E começaram a chamar-se Sofia, Zainabo, Zulfa, Amade, Mussá. E tornaram-se escravos. Vieram os marinheiros da cruz e da espada. Outros negros converteram-se. Começaram a chamar-se José, Francisco, António, Moisés. Todas as mulheres se chamaram Marias. E continuaram escravos. Os negros que foram vendidos ficaram a chamar-se Charles, Mary, Georges, Christian, Joseph, Charlotte, Johnson. Baptizaram-se. E continuaram escravos. Um dia virão outros profetas com as bandeiras vermelhas e doutrinas messiânicas. Deificarão o comunismo, Marx, marxismo, Lénine, leninismo. Diabolizarão o capitalismo e o Ocidente. Os negros começarão a chamar-se Iva, Ivanova, Ivanda, Tania, Kasparov, Tereskova, Nadia, Nadioska. E continuarão escravos. Depois virão pessoas de todo o mundo com dinheiro no bolso para doar aos pobres em nome do desenvolvimento. E os negros chamar-se-ão Sofia, Karen, Tânia, Tatiana, Sheila. Receberão dinheiro deles e continuarão escravos”. (CHIZIANE, 2008, pp.156-157).

III

Paulina recusa o rótulo de romancista, definindo-se apenas como contadora de histórias, inspirada naquilo que ouviu, quando criança e adolescente, da boca dos mais velhos à volta da fogueira. É o que faz em seu romance Niketche, nome que define uma dança de iniciação sexual feminina da Zambézia e de Nampula, no Norte do país, região predominantemente macua, onde está a Ilha de Moçambique, primeira capital das possessões portuguesas da África Oriental e local de desterro do poeta Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), por onde passaram também em épocas diversas os poetas Luís de Camões (c.1524-1580) e Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805).

É de lembrar ainda que na Zambézia, de que fala Chiziane, nas décadas de 30 a 50, ainda praticava-se o muhito que era uma cerimônia da puberdade feminina da região dos lomués (alguns deles, entre 1800 a 1840, foram levados para Santa Catarina e São Paulo como escravos), que etnolinguisticamente pertencem ao grupo dos macuas que também foram levados para o Brasil e espalhados da Bahia a Montevidéu, ao final do século XVIII, ápice do comércio negreiro na Ilha de Moçambique em direção ao Sul da América. Essa cerimônia antiga, o muhito, consistia em preparar a jovem mulher para servir o homem (macho alfa) em plenitude quer no prazer sexual quer na alimentação.

O romance conta a história de amor entre Rami, mulher do Sul e de nível social superior à da imensa maioria das mulheres do país, e Tony, alto funcionário da polícia em Maputo. Casada há vinte anos de papel passado e aliança no dedo e mãe de muitos filhos, Rami, desprezada pelo marido, desconfia de aventuras extraconjugais de Tony. Então, descobre que o marido tem mais quatro mulheres e muitos filhos. Vai à casa de cada uma das rivais, às vezes sai no braço com elas, mas, no final das contas, trava amizade com todas a ponto de, em certo dia, reuni-las em sua casa para fazer uma festa-surpresa ao marido.

A iniciativa, porém, desperta a ira da sogra de Rami, para quem a monogamia é um sistema desumano que marginaliza uma parte das mulheres, privilegiando outras, “que dá teto, amor e pertença a umas crianças, rejeitando outras, que pululam pelas ruas”. Diz a sogra: “O meu Tony, ao lobolar cinco mulheres, subiu ao cimo do monte. Ele é a estrela que brilha no alto e como tal deve ser tratado. E tu, Rami, és a primeira. És o pilar desta família. Todas estas mulheres giram à tua volta e te devem obediência. Ordena-as”. (CHIZIANE, 2002, p. 125).

Lobolo é o dote que o homem dá à mulher ao casar, mas lobolar aqui serve também para definir o ato de quem sustenta um lar. Ao conhecer suas rivais, Rami vai entrar em contato com séculos de tradição e de costumes, a crueldade da vida e também com a diversidade de mundos e culturas que convivem em Moçambique.

É difícil entender estes pensamentos sem
conhecer a dimensão da tragédia africana. Em país de poucos homens – milhares morreram na guerra, muitos ficaram mutilados, outros tantos emigraram –, as mulheres, aparentemente, aceitam dividir seus maridos umas com as outras, embora a poligamia venha de tempos já perdidos, quando os cultores do Islã desceram a África e disseminaram suas crenças e costumes.

Em alguns lugares de Moçambique, como na província sulista de Gaza, é comum que a mulher atenda ao chamado do marido de imediato, largando tudo o que está fazendo. Mais: quando o marido chama, ela não pode responder de pé. (CHIZIANE, 2002, p. 128). Também é difícil entender esta conversa sobre violência na família em que o imaturo Tony, fruto típico de uma sociedade patriarcal (CORREA, 2004), justifica a sua condição de polígamo: “Nunca maltratei a Lu, bati nelas algumas vezes, apenas para manifestar o meu carinho. Também te bati algumas vezes, mas tu estás aí, não me abandonaste para lugar nenhum. A minha mãe sempre foi espancada pelo meu pai, mas nunca abandonou o lar. As mulheres antigas são melhores que as de hoje, que se espantam com um simples açoite (...)”. (CHIZIANE, 2002, pp.282-283).

Ou entender o conformismo de Rami: “(...) Transmito às mulheres a cultura da resignação e do silêncio, tal como aprendi da minha mãe. E a minha mãe aprendeu de sua mãe. Foi sempre assim desde tempos sem memória (...). (CHIZIANE, 2002, p. 254).

IV

Para as seguidoras de Simone de Beauvoir (1908-1986) e Flora Tristán (1803-1844), tudo isto, certamente, parece estranho, mas é a forma que Paulina encontrou de denunciar o sofrimento das mulheres africanas, subvertendo os valores tradicionais. Isso não significa que partilhe integralmente dos valores das feministas brancas. A dita civilização branca já levou tanto sofrimento à África que qualquer idéia, mesmo emoldurada por valores humanitários, sempre é recebida com desconfiança. E não poderia ser diferente.

O trágico é que o grito de Paulina, dificilmente, será ouvido ou compartilhado pelas mulheres de Moçambique, pois os escritores africanos escrevem para o leitor branco de fora de seus países que pode comprar seus livros, já que, em razão dos altos índices de analfabetismo e dos baixos níveis socioeconômicos, as tiragens nos países africanos de língua portuguesa são ínfimas, o que não significa que em Portugal e no Brasil sejam muito superiores.

Em Balada de amor ao vento (1990), seu primeiro romance, Paulina recupera as histórias dos rongas e dos chopes, que ouviu em sua infância, quando ficava a escutar a avó contar casos ao pé da fogueira. Os rongas, o povo do Sol Nascente, chegaram à região de Maputo há mais de 700 anos, procedentes dos Grandes Lagos. O povo chope veio da província de Gaza e da província de Inhambane, falando línguas bantu, da família Niger-Congo. Essas populações já estavam à beira da baía de Maputo quando os portugueses chegaram em 1502 à Terra dos Mpfumos (Grande Maputo), com o navegador Luís Fernandes à frente, numa caravela perdida de um comboio que seguia rumo à Índia (CRAVEIRINHA, 2002, p. 20).

As duas línguas que compõem este grupo são o XiChope, falado principalmente nos distritos de Inharrime e Zavala e no posto administrativo de Chidenguele, e o biTonga, falado na cidade de Inhambane e nos distritos de Maxixe e Jangamo. Estas são as origens de Paulina. Uma das histórias de sua gente é a de Sarnau, a jovem que descobriu que amava Mwando, um rapaz que estava encaminhado para ser padre. Como o namoro não prosperava, cada um vai para um lado e Sarnau acaba virando uma das mulheres do rei das terras de Mambone.

Paulina conta a história desse relacionamento, da juventude à idade madura, suas alegrias e sofrimentos, até a separação dolorosa e o reencontro. Mas, antes de tudo, trata do conflito vivido por uma moçambicana entre o mundo moderno e o mundo tradicional, a África arcaica, seus valores eminentemente machistas em que a mulher só existe para servir ao homem e constituir seu objeto de desejo.

Depois de casada e bem casada, Sarnau vê Mwando reaparecer e vive outro romance. Perseguidos, acabam de novo separando-se. Mwando, depois de se envolver com a mulher de um sipaio (soldado), foi deportado para Angola, onde passou quinze anos a plantar cana e café. Um filho de Sarnau, gerado por Mwando enquanto ela era rainha, acaba coroado rei, depois da morte do presumível pai, enquanto a mãe é obrigada a cumprir um destino de prostituição para sobreviver.

Este é um livro feminista, mas feminista à maneira africana: não é uma obra que desafie o estatuto da mulher africana ou moçambicana. Aliás, usar termos como africana e moçambicana é correr o risco das generalizações. No próprio Moçambique, há flagrantes diferenças: o Norte é uma região matriarcal, onde as mulheres têm mais liberdade, enquanto o Sul e o Centro são regiões patriarcais, extremamente machistas. E a narrativa de Balada de amor ao vento ocorre em Gaza, a mais machista de Moçambique, onde a mulher, além de cozinhar e lavar, para servir uma refeição ao marido tem de fazê-lo de joelhos.

V

Portanto, este livro traz o olhar do feminismo negro, que é diferente do feminismo branco, porque muito mais trágico. Ou alguém duvida que a mulher negra sempre foi muito mais oprimida e massacrada que a branca, que vive do suor de seu próprio rosto há muito mais tempo, que responde por sua própria família desde épocas imemoriais, embora fuja à luz da razão discutir gradações de violência?

Basta ler Barrocas famílias: vida familiar em Minas Gerais no século XVIII, de Luciano Figueiredo, para se perceber que o papel da mulher – e, mais ainda, da mulher negra – sempre foi esquecido nos livros de História do Brasil, como se a colonização e a ocupação do território tivessem resultado apenas da ação do homem (FIGUEIREDO, 1997, p.16). E que teriam sido raras as mulheres européias que migraram para o Brasil e para a América hispânica, até porque nos séculos XVI, XVII e ainda XVIII havia muitas restrições à presença feminina a bordo de embarcações.

E, portanto, foram indígenas as mulheres que acolheram o afeto não só dos primeiros colonizadores como de tantos outros que continuaram a chegar ao Novo Mundo, bem como o fizeram as africanas e as miscigenadas, anos mais tarde, constituindo uniões consensuais e o concubinato, práticas contra as quais de pouco valia o pífio combate moralizante empreendido pela Igreja. Foi dessa população mestiça que nasceu, inclusive, a elite econômica brasileira que nunca foi branca, embora sempre tenha procurado se passar por tal.

Por isso, as poucas mulheres idealizadas por nossa poesia arcádica oitocentista, como Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, a Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga, e Bárbara Eliodora, de Alvarenga Peixoto (1744-1793), só foram incensadas pelo Romantismo do século XIX porque eram brancas, enquanto a negra Francisca Arcângela Cardoso, que deu quatro filhos ao mavioso Cláudio Manuel da Costa (1729-1789) e lhe inspirou vários poemas, está esquecida até hoje.

Tal como na África a mulher negra na América também buscou suas próprias estratégias de sobrevivência, desempenhou papéis econômicos, criou os filhos e protagonizou muitas histórias – que, com certeza, estão à espera do talento de uma Paulina Chiziane brasileira para contá-las como se conta histórias à beira da fogueira e seguir uma tradição iniciada pela maranhense Maria Firmina dos Reis (1825-1917), a primeira romancista negra do Brasil.
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Adelto Gonçalves (1951) é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br

(*) Publicado no livro Passagens para o Índico: encontros brasileiros com a literatura moçambicana, de Rita Chaves e Tania Macêdo (organizadoras). Maputo: Marimbique Conteúdos e Publicações, 2012, pp. 33-41.


Referências bibliográficas

ARGUEDAS, José María. El zorro de arriba y el zorro de abajo. Buenos Aires: Losada, 1975.
CABAÇO, José Luís. Moçambique: identidades, colonialismo e libertação. São Paulo: Unesp São Paulo, 2009.
CHIZIANE, Paulina. Balada de amor ao vento. Lisboa: Caminho, 2003.
________________. Niketche. Uma história de poligamia. Lisboa: Caminho, 2002.
________________. O alegre canto da perdiz. Lisboa: Caminho, 2008.
________________. O sétimo juramento. Lisboa: Caminho, 2000.
________________. Ventos do apocalipse. Lisboa: Caminho, 1999.
CRAVEIRINHA, João. Jezebela: o charme indiscreto dos quarenta. Crónica de uma mulher. Lisboa: Universitária Editora, 2005.
________________. Moçambique: feitiços, cobras e lagartos. Lisboa: Texto Editora, 2002.
FIGUEIREDO, Luciano. Barrocas famílias: vida familiar em Minas Gerais no século XVIII. São Paulo: Editora Hucitec, 1997.
OESTERS, Christoph. Figuras do Outro: identidades pós-coloniais no romance moçambicano contemporâneo. Tese de doutorado. Universidade Utrecht, Holanda, 2005.
ORTIZ, Fernando. Contrapunteo cubano del tabaco y el azúcar. Barcelona: Editorial Ariel, 1973.
RAMA, Ángel. Transculturación narrativa en América Latina. Cidade do México: Siglo Veintiuno Editores, 1985.
Meios eletrônicos:
ADICHIE, Chimamanda, 2009. The danger of a single story. Discurso na Universidade de Oxford, Inglaterra, em julho de 2009. .
CORREA, Eloisa Porto, 2004. “A trajetória descendente do amante viciado, tirano, sádico e manipulador em Niketche de Paulina Chiziane”. Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos. Acesso em: 17abr2010.
 

O sentimento de açorianidade ---->
Adelto Gonçalves (*)

I

Pouco estudada e conhecida, especialmente no Brasil, apesar dos muitos imigrantes que para as regiões Sul e Sudeste vieram ao final do século XIX e na primeira metade do século XX, a literatura de temática açoriana ainda aguarda o surgimento de estudos teóricos e crítico-literários na universidade brasileira, embora não sejam raros os descendentes daqueles pioneiros – na maioria, analfabetos ou semialfabetizados – que já alcançaram os graus de mestre e doutor. No Brasil, destaca-se o romancista gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil (1945), professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul e doutor em Letras, autor de Escritos Açorianos: a Viagem de Retorno – Tópicos acerca da Narrativa Açoriana pós-25 de Abril, ensaios (Lisboa, Salamandra, 2003) e de uma vasta obra que inclui outros livros, alguns publicados também em Portugal, Espanha e França.

Na universidade portuguesa, obviamente, esse desconhecimento não é tão flagrante, mas, ainda assim, a bibliografia não é tão fértil como deveria. Um estudo recente que ameniza um pouco essa aridez é a tese de doutoramento “O conto literário de temática açoriana: a ilha, o mar e a emigração”, de Mónica Serpa Cabral, da Universidade de Aveiro, autora também de uma investigação de mestrado sobre a narrativa breve de João de Melo (1949), notável escritor nascido na ilha de São Miguel, autor de romances, ensaios, poemas, crônicas e de um livro de viagens, Açores, o Segredo das Ilhas (2000).

Em texto de apresentação da tese de doutoramento publicado na Forma Breve – Revista de Literatura, do Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro, nº 8, dezembro de 2010, pp. 235-243, Mónica, nascida na ilha de São Miguel, observa que seu interesse pela realidade açoriana advém naturalmente de sua proximidade afetiva com o arquipélago, reforçada pela saudade provocada pela distância geográfica, já que reside há 13 anos no continente. Ao estudar o conto de temática açoriana, a autora diz que só nos anos 90 verificou-se um interesse maior pelo estudo do gênero em Portugal.

Segundo a pesquisadora, certas narrativas açorianas alargam os contornos do conto, derrubam fronteiras e apropriam-se de muitos traços de outros gêneros e subgêneros, como a crônica jornalística, a crônica histórica, a narrativa de viagens, a novela, o poema em prosa, o quadro campesino, a autobiografia, a lenda, o mito, a fábula, o artigo de caráter científico, entre outros. Seja como for, diz a autora, a literatura dos Açores oferece uma visão particular do mundo e da sociedade, inconfundível com o modo de ser do português do continente, e que Vitorino Nemésio (1901-1978) definiu como açorianidade, um sentimento que vai além do simples bairrismo, daquela solidariedade que costuma unir aqueles que são oriundos de um mesmo lugar para constituir um estado de ser do homem açoriano, especialmente daquele que emigrou, mas preservou no coração o amor pelo lugar e sua gente.

Para Mónica, como a literatura açoriana está em grande parte ligada ao mundo rural, mesmo quando a ação se desenrola em espaço citadino, esse ruralismo está associado à memória coletiva e à arte de contar. Nesse sentido, os escritores açorianos são guardiões da memória coletiva, contadores de histórias que mantêm intrínseca ligação com a oralidade.

II

Em seu trabalho, que teve a orientação do professor António Manuel Ferreira, doutor em Literatura pela Universidade de Aveiro, a investigadora procurou apresentar uma visão histórica da narrativa açoriana, desde o final do século XIX até os dias de hoje, bem como dos principais autores, ainda que, como observa, a literatura no arquipélago exista desde a sua descoberta, pois data do século XVI a obra Saudades da Terra, de Gaspar Frutuoso (1522-1591). Segundo ela, até a Revolução de Abril de 1974, manteve-se certo conservadorismo temático na literatura açoriana, o que não se tem dado nos últimos anos, quando houve maior abertura a novas experiências literárias.

Como a emigração é um acontecimento central na história dos Açores, não poderia deixar de estar presente na literatura. Por isso, Mónica dedica ao tema um capítulo de sua tese, o quinto. O ponto central da tese, porém, como observa a autora, está no fato de que a literatura açoriana, em especial o conto, apresenta “uma certa coesão feita de recorrências, sobretudo um modo açoriano de tratar essas recorrências, as quais estão intimamente ligadas à especificidade da vivência açoriana, marcada por um domínio espaciotemporal opresso e circular”.

Na verdade, esta é a primeira vez que, em Portugal, estuda-se, numa tese de doutoramento, a evolução do conto de temática açoriana. Por isso, a autora não pode se prender ao estudo de um autor ou uma época, procurando oferecer uma visão panorâmica do gênero, destacando os seus grandes temas e imagens: a sensação de cárcere de quem vive em ilhas, o chamamento do horizonte, a partida, a errância, o apelo das raízes e, por fim, o regresso à casa. “Mesmo quando ainda residia na ilha, sentia a força das raízes e um amor muito profundo pela terra de origem, dois sentimentos que se intensificaram com a partida”, diz Mónica. “Por isso, tal como muitos escritores açorianos que abandonaram o arquipélago, encarei meu trabalho como uma forma de mitigar a distância e a saudade, um meio de sentir a ilha mais próxima de mim”, acrescenta.

III

Em outro texto, “Entre o conto e a crônica: o estudo de narrativas de autores açorianos”, que também faz parte da edição nº 8 da revista Forma Breve, dedicada à crônica, Mónica Serpa Cabral estuda quatro autores açorianos praticantes desse gênero, Manuel Greaves (1878-1956), Daniel de Sá (1944), Manuel Ferreira (1916) e Dias de Melo (1925-2008). De Greaves e Sá, a investigadora diz que em Histórias que me contaram (1948) e Crônica do Despovoamento das Ilhas (e Outras Cartas de El-Rei) (1995), respectivamente, ambos aproximam os seus textos da realidade factual, explorando episódios da História dos Açores.

“Assim, a realidade histórica confunde-se com a ficção e origina um misto de conto e crônica que não deixa o leitor marcar com exatidão a fronteira entre fato e ficção”, observa, acrescentando que, dos dois, Greaves é o que mais dá importância à ação, usando uma linguagem simples, sem grandes artifícios literários. Enfim, lembra, os textos de ambos contemplam aspectos regionais, nomeadamente a pronúncia, o léxico, os costumes e tradições, além de pormenores geográficos.

Já em Manuel Ferreira a fonte de inspiração vem da realidade social e histórica insular e dos casos gravados na memória coletiva. Jornalista de profissão, diz a crítica, o escritor mostra preferência pela realidade factual, entrando, assim, no domínio da crônica. Mónica cita o conto “O alevante da isca”, do livro O Barco e o Sonho (1979), que é baseado num episódio verídico da história açoriana, em que a massa desfavorecida da cidade de Ponta Delgada se levanta contra a exploração e a ganância de um fiscal enviado de Lisboa, “um cão sem escrúpulos nem consciência, a governar-se à grande e à francesa, à coca e à custa do povo, entre rodadas de vinho e polvo na tasca do Simão, gabarola e cachaceiro – um rejeira de mil raios o partisse! (....)”.

Em Cidade Cinzenta (1971) e Vinde e Vede (1979), de Dias de Melo, diz a investigadora, fica difícil identificar o gênero, o que a levou a chamar os textos de narrativas, que constituem mais reflexões de um narrador que deambula pela paisagem física, humana e social. São, portanto, textos híbridos que extrapolam os limites do conto e entram no domínio da crônica, define a autora.

Um exemplo apontado pela estudiosa é o conto “Vinte contos em cinco minutos”, que fala de um personagem, o João Carroça, “homem de pé descalço” que fora enriquecendo ao longo do tempo e transformou-se num grande senhor, um respeitável burguês, que não hesita em explorar friamente um antigo companheiro dos dias em que andava de carroça a vender a mercadoria, comprando-lhe a batata a cinco escudos e vendendo-a, cinco minutos depois, a 25 a um oficial do exército, o que explica o título da narrativa. Portanto, diz, o conto representa o lucro fácil de um homem rico, sem escrúpulos e indiferente à desgraça alheia.

Seja como for, para a investigadora, as narrativas de Manuel Ferreira e Dias de Melo aproximam-se mais do conto e apresentam, de forma mais visível, uma estrutura de ficção. Por aqui, vê-se a importância dos trabalhos de Mónica Serpa Cabral resgatando o trabalho não só destes ficcionistas açorianos como de outros, despertando no leitor a curiosidade de conhecê-los. Com certeza, será a partir de trabalhos bem estruturados e escritos com paixão como estes que a literatura açoriana há de se tornar mais conhecida não só em Portugal como no Brasil e em outras nações e comunidades dispersas do mundo lusófono.

IV

Se para alguma coisa servir, é de lembrar que também este articulista é descendente de açorianos – seus avós maternos – que para a cidade de Santos, no Litoral de São Paulo, na região Sudeste do Brasil, vieram ao final do século XIX, estabelecendo-se no Morro de São Bento, que até hoje é um reduto das tradições dos Açores e da Ilha da Madeira de que melhor exemplo são as suas famosas bordadeiras. E teve como co-orientador, em Portugal, em seu trabalho de doutoramento em Letras pela Universidade de São Paulo, o professor Fernando Cristóvão, assistente e depois sucessor do açoriano Vitorino Nemésio na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
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FORMA BREVE – Revista de Literatura. Departamento de Línguas e Cultura da Universidade de Aveiro, dezembro de 2010. E-mail: antonio@ua.pt
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br
 

José Bonifácio, o perfil do Patriarca ---->
HISTÓRIA
Adelto Gonçalves (*)

I

Considerado o personagem mais influente da História do Brasil no começo do século XIX, José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838) foi figura-chave nas tratativas políticas que levaram à separação do Brasil de Portugal em 1822, a ponto de hoje ser mais conhecido como o Patriarca da Independência. Filho de uma família oligarca estabelecida na vila de Santos, teve educação esmerada e alcançou em Portugal postos que poucas pessoas nascidas no Reino alcançaram, antes de retornar ao Brasil disposto a gozar de uma merecida aposentadoria, plano que teve de adiar depois de engolfado pelos acontecimentos que se sucediam à grande velocidade, primeiro na capitania de São Paulo, e depois na Corte, no Rio de Janeiro.

É essa brilhante trajetória que a professora Miriam Dolhnikoff reconstrói em José Bonifácio, 12º livro da Coleção Perfis Brasileiros da Companhia das Letras, depois de consulta às principais obras impressas que reúnem não só os discursos e papéis soltos do influente brasileiro como aquelas que mais recentemente serviram para jorrar mais à luz ao contexto histórico em que se deu a independência brasileira. Embora tenha sido membro da Academia das Ciências de Lisboa, José Bonifácio escreveu poucos livros, um de poesia, quando no exílio, e obras técnicas.

Mas, ao contrário dos políticos brasileiros de hoje – em boa parte, iletrados e até mesmo apedeutas –, preparou-se a vida inteira para ocupar postos importantes no reino luso-brasileiro. Mineralogista, foi um homem de seu tempo, ou seja, um cientista que, como era habitual na época, transitava pelos vários ramos do saber. Por isso, além de estudar as matérias de sua especialidade, lia vorazmente autores clássicos e contemporâneos de filosofia, história, política e economia, como assinala a sua biógrafa.

II

Depois de enviado pela família para estudar em Coimbra, José Bonifácio construiria sua carreira no Reino, só retornando ao Brasil na idade madura. Em 1804, aos 41 anos, já se considerava desiludido com os rumos de Portugal e do Brasil, sem poder colocar em prática os conhecimentos que obtivera em viagens de estudos pela Europa pagas pelo próprio governo, por causa das redes burocráticas da monarquia absolutista que impediam qualquer tentativa de modernização. Como destaca Miriam Dolhnikoff, para ele, o problema não estava apenas no governo, mas também no povo nos dois lados do Atlântico, que reputava vil e ignorante. Foi o que deixou escrito. Também o anticlericalismo foi um aspecto marcante em seu pensamento. Para ele, a Igreja era sinônimo de obscurantismo, dogmatismo e atraso cultural. Sem contar que havia sido sempre um ponto de apoio para aqueles que defendiam o regime da escravidão, sistema que considerava responsável pelo atraso da colônia.

Parece que a ideia de se dedicar ao seu sítio nos Outeirinhos, em Santos, era apenas um discurso para o público externo, pois há documentos em que ele pleiteia do governo a indicação para capitão-general e governador, primeiro, de Santa Catarina e, depois de São Paulo, propósitos que nunca alcançou. Mas o melhor do livro, obviamente, é a parte reservada a sua participação na separação. De início, a historiadora lembra que, como pesquisas mais recentes já têm adiantado, a proclamação da Independência não pode mais ser atribuída a uma possível intenção das Cortes de recolonizar o Brasil. O que estava em jogo era o perfil que teria a nova monarquia constitucional. De um lado, os americanos queriam autonomia para defender seus interesses específicos, enquanto, de outro, os portugueses queriam uma monarquia centralizada em Lisboa. Até porque estavam cansados de viver como colônia da antiga colônia, como se lê no manifesto dos rebeldes do Porto de fevereiro de 1821, exigindo o retorno de d. João a Portugal.

A autora mostra muito bem como José Bonifácio, três anos depois de fazer uma eloquente defesa da monarquia absolutista, soube aderir à monarquia constitucional e preconizar, ao mesmo tempo, um governo forte, a uma época em que a América portuguesa podia seguir o caminho dos vizinhos espanhóis, cindindo-se em várias nações sob governos republicanos. Em outras palavras: defendia poderes suficientes nas mãos de D. Pedro I para “centralizar a União e prevenir desordens”. Naturalmente, esses poderes acabariam por cair também em suas mãos, já que seria o principal ministro do novo imperador. E deles se utilizou ao dirigir um processo que privilegiava a mudança com ordem.

No poder, para construir a nova nação, teria muito trabalho com a oposição política, até mesmo por causa da personalidade dúbia de D. Pedro I. Contaria com o apoio de seus irmãos, Antônio Carlos e Martim Francisco, e outros amigos leais. Finalmente, D. Pedro I cederia à oposição, inconformada com os poderes excessivos do ministro, estimulando a saída de José Bonifácio do governo. José Bonifácio deixou escrito que sua queda teria sido articulada pelo próprio imperador.

Os acontecimentos iriam se agravar até que vieram o fechamento da Assembleia Constituinte e a decretação da pena de deportação para alguns deputados, entre eles os irmãos Andradas. Em novembro de 1823, José Bonifácio, Martim Francisco e Antônio Carlos foram presos e condenados ao exílio.

III

Se algo se pode acrescentar – o que não significa qualquer reparo à obra –, é para ressaltar que a força política da família Andrada vinha desde o começo da segunda metade do século XVIII e alcançou o seu auge, obviamente, às vésperas de 1822, indo até 1823. Um exemplo é a atuação de Antônio Carlos, irmão de José Bonifácio, que, como rebento da oligarquia, escapou de punições severas de que, fosse ele filho de uma família mais humilde, nunca teria escapado.

É de lembrar que Antônio Carlos e seu irmão Martim Francisco, enquanto José Bonifácio permanecia em Lisboa, andaram às turras com o governador da capitania de São Paulo, Franca e Horta. Em outubro de 1806, sendo Antônio Carlos juiz de fora da vila de Santos, sua mãe Maria Bárbara pediu explicitamente ao príncipe regente o afastamento do governador, acusando-o de ter prejudicado os negócios de sua família. Depois, em 1811, quando já estava afastado do cargo de juiz de fora, Antônio Carlos seria acusado de mandante do assassinato do comerciante José Joaquim da Cunha. Quem fez a acusação foi a viúva, D. Bárbara Emília, que assistira, em sua própria morada, em Santos, à morte do marido por embuçados armados.

A devassa aberta nada apurou contra Antônio Carlos, que a essa altura já estava nomeado ouvidor da capitania de São Paulo. Mulher de posses, D. Bárbara mudou-se para o Rio de Janeiro e pediu ao príncipe regente a abertura de nova devassa, argumentando que a primeira havia sido um jogo de cartas marcadas. Afinal, o novo juiz de fora, João Carlos Leal, responsável pelas investigações, seria amigo de Antônio Carlos, tendo inclusive sido hóspede na casa do antecessor. Já o ouvidor da capitania, Miguel Antônio de Azevedo Veiga, não quis, a princípio, fazer a devassa, dando-se por suspeito porque iria julgar o seu sucessor e só o fez depois que recebeu ordem régia. Haja esprit de corps...

Já Antônio Carlos preferiu homiziar-se na freguesia de São Gonçalo da Praia Grande de Niterói, valendo-se de suas ligações com os meios maçônicos. Nada ficaria provado contra si, mas Antônio Carlos não assumiria o cargo de ouvidor. Ainda assim, acabaria por ser indicado para auditor de guerra em São Paulo. Em 1815, depois de injunções da família, seria nomeado ouvidor da comarca de Olinda, na capitania de Pernambuco.

Dois anos depois, no cargo, iria aderir a uma rebelião contra o governador e capitão-general Caetano Pinto de Miranda Montenegro. Os revoltosos implantaram um governo provisório, proclamando uma república de inspiração maçônica. No entanto, 74 dias depois, o governo revolucionário entraria em crise e cairia, depois do bloqueio do Recife por tropas enviadas do Rio de Janeiro. Antônio Carlos foi preso e encaminhado para a Bahia. No cárcere, sofreria torturas. Como defesa, alegaria que havia sido constrangido a aderir à sedição. Parece que assim evitou o pior: os demais acusados seriam enforcados e teriam mãos e cabeças decepadas.

Ficaria preso na Bahia até 1821, quando foi libertado pelo governo imperial, provavelmente por influência de José Bonifácio, que havia retornado de Portugal ao final de 1819. E, em fevereiro de 1822, Antônio Carlos chegaria a Lisboa como representante da província de São Paulo às Cortes. Como explicar tamanha reviravolta na vida de um acusado de sedição? Só mesmo o poder e a influência de sua família e, mais especificamente, de seu irmão poderiam oferecer uma explicação plausível, já que para os rebentos da oligarquia tudo – ou quase tudo – seria permitido. Ou pelo menos para alguns desses rebentos. Guardadas as devidas distâncias e circunstâncias, ainda hoje é assim.

Infelizmente, o perfil de José Bonifácio traçado por Miriam Dolhnikoff pouco acrescenta a esse episódio. Por isso, fica aqui a sugestão para algum pesquisador que esteja disposto a vasculhar os documentos da época e aprofundar a questão. As informações que este articulista colocou aqui neste tópico foram tiradas de documentos manuscritos da capitania de São Paulo do Arquivo Histórico Ultramarino (AHU), de Lisboa, que também podem ser encontrados em microfilmes e CD-Rom no Arquivo do Estado de São Paulo (AESP).

IV

Miriam Dolhnikoff , formada em Direito e História pela Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo, é mestre e doutora em História Econômica pela Universidade de São Paulo (USP), onde é professora. Pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), é autora de O pacto imperial: origens do federalismo no Brasil (São Paulo, Editora Globo, 2005) e organizadora dos textos de José Bonifácio de Andrada e Silva reunidos em Projetos para o Brasil (1998), publicado pela Companhia das Letras.
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JOSÉ BONIFÁCIO, de Miriam Dolhnikoff. São Paulo: Companhia das Letras, 360 págs., R$ 44,50, 2012. Site: www.companhiadasletras.com.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br
 

Uma descida ao inferno da loucura ---->
RESENHA
Adelto Gonçalves (*)

I

Se como diz a filosofia popular, de médico e louco todos têm um pouco, a um médico louco não há o que acrescentar. Foi a esse personagem insólito que o médico e neurocientista Edson Amâncio recorreu para empreender a sua terceira incursão no romance com Diário de um Médico Louco (Taubaté, LetraSelvagem, 2012). Com um tanto de autobiográfico – que fica claro quando se sabe que o autor realizou nos anos 80 uma viagem a São Petersburgo e Moscou, ainda à época do comunismo –, este relato é um diálogo que Amâncio faz não com a literatura médica a que teve acesso como profissional da área de Saúde, mas com autores que marcaram a sua vida de ficcionista, especialmente Fiodor Dostoievski (1821-1881), a quem estudou em profundidade, até porque atraído pelas ligações que pode haver entre genialidade e esquizofrenia ou até mesmo com o desequilíbrio mental.

Não por acaso Amâncio recupera neste livro a São Petersburgo que conheceu – ao tempo, chamada de Leningrado –, com o seu Hermitage, o famoso museu, a Fortaleza de São Pedro e São Paulo – onde Dostoievski permaneceu antes de ser encaminhado para o exílio na Sibéria – e, principalmente, o Museu Literário-Memorial dedicado ao autor russo que fica no mesmo apartamento da rua Kuznechny 5/2, onde ele morou, aberto em novembro de 1971, por ocasião do 150º aniversário do nascimento do escritor.

II

O relato começa com um clichê da literatura. No caso, é um médico escritor que nada tem de louco que tem acesso a um texto de outrem, que seria outro médico às voltas com distúrbios mentais, um tal Dr.B*. Pelo que se lê da apresentação escrita por esse médico sensato, o tal Dr. B* seria um médico um tanto inconsequente, dado a prazeres etílicos, gastão, acossado por credores e capaz de tomar atitudes tresloucadas. Por acaso, nos anos 70 e 80, no círculo de médicos contemporâneos do autor na cidade de Santos, havia um médico que pouco fugia desse figurino: um anestesista considerado de mão cheia, mas que, ao final das tardes de domingo, invariavelmente, saía da praia carregado em triunfo, depois de dissipações capazes de fazer corar Baco.

Resultado de uma mente conturbada, este irregular relato não tem um fio condutor, como reconhece o médico sensato na apresentação, a quem o colega desvairado passou a tarefa de encontrar meios de torná-lo público depois de sua morte. Se não se trata de uma memória de além-túmulo, à semelhança ao Brás Cubas de Machado de Assis (1839-1908), o manuscrito teria sido localizado num baú por familiares do médico tresloucado e traria um apelo do autor ao médico sensato seu amigo para que o publicasse de alguma forma.

Depois de contar suas primeiras decepções com a medicina, ainda ao tempo de acadêmico na cidade de Santos, o médico relata uma série de acontecimentos insólitos no melhor estilo machadiano em que procura mostrar que os loucos estão na sociedade enquanto os de mente sã estariam nos asilos e manicômios – ou seja, um mundo de sinais invertidos. Em meio ao relato, o médico louco surpreende o leitor com os acontecimentos da viagem que fizera a Rússia, contando em detalhes pequenos incidentes como o hábito que os hotéis moscovitas preservam até hoje de permitir que, de madrugada, vozes femininas langorosas liguem para o quarto do hóspede oferecendo serviços íntimos, esteja o cliente acompanhado ou não da esposa.

Mais que isso, ler este relato é uma oportunidade de conhecer um pouco de Dostoievski, sobre cuja obra o autor mesmo – não o médico louco – é especialista. Assim, desfilam aos olhos do leitor pormenores do outro museu dedicado a Dostoievski, que fica ao Norte de Moscou, montado na casa onde o romancista passou a sua infância, perto do hospital em que seu pai trabalhava.

III

O mundo vivido pelo médico louco de Amâncio é o mundo do pesadelo e do bode expiatório, de cativeiro, dor e confusão, como diria o crítico canadense Northrop Frye (1912-1992). Ou ainda: o mundo do trabalho pervertido ou desolado, de ruínas e de catacumbas, instrumentos de tortura e monumentos à insensatez, que, por sinal, são encontrados no mundo ficcional de Dostoievski. Seja como for, depois da descida ao inferno dostoievskiano, o protagonista do relato retorna à cidade de Santos como a um mundo que morre, tal qual o salmão idoso retorna ao local de sua procriação, para se continuar aqui a citar Frye.

Como observa o poeta e crítico Ademir Demarchi, doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP) e editor da Revista Babel, autor do texto de apresentação, o livro tenta transmitir uma “verdade”, um relato de algo que existiu, mas que, para o leitor, o tempo todo vai se colocando, de fato, como seguidos falseamentos. “A dúvida, assim, perpassa a leitura, afinal em nada se pode compactuar com o narrador, pois as viagens que relata, uma delas à Rússia de Dostoievski, podem ser totalmente falsas, uma vez que fantasias, delírios de um louco que não saiu do entorno de seu quarto, para mencionar Maistre”, diz.


IV

Nascido em Sacramento-MG em 1948, Edson Amâncio é médico neurologista estabelecido em Santos há mais de 30 anos. Graduado, mestre e doutor em Medicina, integra o corpo clínico do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Sua estréia literária deu-se com os contos de Em pleno delito (1986), vindo a seguir Cruz das almas (1988), romance, Pergunte ao mineiro (1995), crônicas, e Minha cara impune (1997), romance.

Em 2006, publicou O homem que fazia chover e outras histórias inventadas pela mente, obra que chamou a atenção da crítica e do público por discorrer sobre as ligações ainda obscuras entre distúrbios psíquicos e genialidade. Nesse livro, o autor comenta casos clínicos bizarros de pacientes comuns e de mentes consideradas geniais como John Nash, Mozart, Machado de Assis, Van Gogh, Flaubert, Virgínia Wolf e Bill Gates.
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DIÁRIO DE UM MÉDICO LOUCO, de Edson Amâncio. Taubaté: Editora LetraSelvagem, 152 págs., 2012, R$ 30,00. E-mail: letraselvagem@letraselvagem.com.br Site: letraselvagem.com.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br
 
 
 
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