Adelto Gonçalves
  Adelto Gonçalves
 
Início
Contactos
Links Úteis
 
Últimos tópicos:
Dicke: a reparação de uma injustiça literária
A poesia do cotidiano de Ronaldo Cagiano
Professor da USP visita Centro Lusófono em São Petersburgo
O pobre, porque é pobre, pague tudo
A vida (multifacetada) de Pagu em imagens
 
Arquivos:
Arquivo 2012
Janeiro
Fevereiro
Arquivo 2011
Janeiro
Fevereiro
Agosto
Setembro
Novembro
Dezembro
Arquivo 2010
Março
Junho
Julho
Agosto
Outubro
Dezembro



Veja os últimos 5 tópicos:

Dicke: a reparação de uma injustiça literária ---->
RESENHA
Adelto Gonçalves (*)

I

Em algum lugar, este articulista já escreveu – e repete-o agora – que, daqui a cem anos, o historiador literário que pretender traçar um inventário da melhor literatura produzida no Brasil na segunda metade do século XX e nas primeiras décadas do século XXI não poderá se limitar a consultar as listas dos livros mais vendidos das revistas semanais nem os catálogos das grandes editoras.

Se o fizer, correrá o risco de cometer equívocos, tal como o investigador que se satisfaz ao compulsar apenas a documentação oficial de determinado período histórico – porque acaba por ficar com a visão de apenas um lado da História e exatamente o mais forte e opressivo. Afinal, boa parte da literatura de melhor qualidade vem sendo publicada no Brasil por pequenas editoras fora do eixo São Paulo-Rio de Janeiro.

Basta ver que nenhuma das casas editoriais paulistas e cariocas de hoje ocupou o vácuo deixado pela Livraria José Olympio Editora, do Rio de Janeiro, que, da década de 1940 até meados da década de 1980, cumpriu exemplarmente o papel de incentivar os jovens talentos, revelando um grande número de romancistas, contistas e poetas que hoje fazem parte da história da Literatura Brasileira.

Uma prova do que se escreve aqui é o romance Deus de Caim, de Ricardo Guilherme Dicke (1936-2008), que agora sai em terceira edição pela editora Letra Selvagem, de Taubaté-SP, depois de ter sido publicado pela Edinova, do Rio de Janeiro, em 1968, e pela Gráfica Sereia, de Cuiabá, em 2006. Se tivesse sido lançado à época pela José Olympio, teria seguido um percurso natural, ganhando maior divulgação na imprensa e adquirido o foro de grande revelação literária. Afinal, em 1967, o romance conquistara o quarto lugar do Prêmio Nacional Walmap, o mais importante do País à época, depois de analisado por um júri integrado por Guimarães Rosa (1908-1967), Jorge Amado (1912-2001) e Antonio Olinto (1919-2009).

O primeiro lugar ficou com Jorge, um brasileiro, de Oswaldo França Júnior (1936-1989). Olhando-se a uma distância de 45 anos, é de reconhecer que o júri não andou mal ao escolher o livro de França que, talvez até em função da premiação ou do ativismo literário do próprio autor, tornou-se mais conhecido e teve melhor fortuna crítica, assim como boa parte da produção do escritor mineiro, ainda que se possa dizer que, literariamente, o romance de Dicke é mais bem trabalhado e cerebral. Por isso, mereceria ter tido melhor sorte.

II

Ao contrário de Oswaldo França Júnior, que, morando em Belo Horizonte, teve alguns de seus livros publicados pela Nova Fronteira, do Rio de Janeiro, e, dentro das limitadas dimensões da literatura num país ainda extremamente inculto, tornou-se um nome conhecido nacionalmente, Dicke teve uma carreira literária, praticamente, ignorada, ainda que tenha sido citado por alguns raros autores e estudiosos, que conheciam a sua obra e reconheciam sua importância. Entre aqueles que se referiram com entusiasmo à obra de Dicke estão Hilda Hilst (1930-2004), Nélida Piñon (1937) e até o cineasta Glauber Rocha (1939-1981), que chegou ao exagero de afirmar que Dicke era “o maior escritor vivo do Brasil, mas que ninguém o conhecia”.

Quem consultar hoje o Google talvez venha a concluir que foi preciso que Dicke morresse para que seu nome passasse a se tornar mais conhecido. De fato, hoje, já não é tão desconhecido assim. E até já ultrapassou os muros da universidade. Em 2005, Juliano Moreno Kersul de Carvalho, mestre em História pela Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), apresentou a dissertação “Do sertão ao litoral: a trajetória do escritor Ricardo Guilherme Dicke e a publicação do livro Deus de Caim na década de 1960”. Para escrevê-la, teve a oportunidade de consultar o arquivo particular do autor. É de sua autoria o prefácio da segunda edição, reproduzido também nesta terceira edição.

Em 2011, Luciana Rueda Soares, professora de Língua Portuguesa, também obteve o seu mestrado em Letras pela UFMT com a dissertação “A configuração das personagens em Madona dos páramos, de Ricardo Guilherme Dicke”, mas, antes disso, já escrevera o artigo “Ricardo Guilherme Dicke e a marginalização do sistema literário tradicional brasileiro”, fruto das pesquisas para a sua tese de mestrado, em que aborda a questão da ausência de escritor no cânone literário nacional.

Luciana afirma que essa constitui apenas uma das muitas injustiças que ocorrem em uma sociedade em que uma elite intelectual determina o que tem valor estético ou não. Para ela, “são muitos os excluídos da lista canônica, mas com o avanço e a globalização das informações é só uma questão de tempo e oportunidade para que essa questão seja revista”. Ainda bem. Aliás, a reparação dessa injustiça começa a ser feita pela terceira edição de Deus de Caim, pela Letra Selvagem, que vem alcançando grande repercussão nos jornais que ainda dedicam espaço à literatura. Com essa (re)descoberta do grande autor que Dicke sempre foi, o que se espera é que as dissertações de Juliano Moreno Kersul de Carvalho e Luciana Rueda Soares também sejam publicadas em livro em breve.

Sem contar que a terceira edição de Deus de Caim traz também uma apresentação de Nelly Novaes Coelho, professora titular da Universidade de São Paulo, em que a renomada crítica literária diz que este labiríntico romance “deu início à grande obra que Ricardo Guilherme Dicke realizou durante toda a sua longa vida”.

III

Dicke nasceu em Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso, onde passou a infância. Era filho de um alemão que viveu no Paraguai e mudou-se para o Brasil. Já adulto, passou a morar em Cuiabá, onde chegou a escrever o seu primeiro livro, Caminhos de Sol e Lua. Ainda bastante jovem, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se licenciou em Filosofia e especializou-se em Merleau-Ponty (1908-1961) e fez mestrado em Filosofia da Arte na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Estudou pintura e desenho e participou do Salão de Arte Moderna do Rio de Janeiro em 1966.

A essa época, trabalhou como revisor, redator e tradutor e foi repórter de O Globo. Depois da publicação de Deus de Caim em 1968, resolveu voltar a Cuiabá, onde trabalhou como professor e jornalista e fez várias exposições de seus quadros. Ao morrer, aos 72 anos, deixava uma obra respeitada por alguns intelectuais, mas ao mesmo tempo ignorada. Seus livros, na maioria, foram publicados por editoras pequenas, em tiragens reduzidas, e repercutiram pouco na imprensa do Rio de Janeiro e São Paulo. Ao que parece, deixou ainda algumas obras inéditas nas mãos da viúva, Adélia Boscov, com quem casara aos 26 anos de idade.

Publicou ainda Como o silêncio (1968), Caieira (1978), Madona dos páramos (1981), Último horizonte (1988), A chave do abismo (1986), Cerimônias do esquecimento (1995), Rio abaixo dos vaqueiros (2001), Salário dos poetas (2001), Conjunctio oppositorum no Grande Sertão (2002) e Toada do esquecimento & sinfonia eqüestre (2006).

IV

Inspirado em conhecido mito bíblico, Deus de Caim conta a história de dois irmãos gêmeos, Jônatas e Lázaro, que se apaixonam pela mesma mulher, Minira, localizando-os em Pasmoso, cidade inventada assim como a Yoknapatawpha, de William Faulkner (1897-1962), a Macondo, de Gabriel García Márquez (1927), e a Santa Maria, de Juan Carlos Onetti (1909-1994), imaginada no interior do Mato Grosso. Com estilo denso, Dicke leva o leitor para um mundo dominado pelo ódio e pela incompreensão, em que todos parecem condenados ao inferno.

Na apresentação que escreveu para o romance, o escritor e crítico Ronaldo Cagiano diz que Deus de Caim “se converte numa escritura das paixões e desatinos humanos; é também fruto de uma catarse do autor e de seus personagens, tal o fluxo desordenado, eruptivo e fulminante com que sua narrativa, tecnicamente apurada, vai se processando”. E observa que, “ao traçar um painel da vida rural e urbana do Mato Grosso, Deus de Caim desvela também as tensões sociais da época, o garroteamento da liberdade, a relação entre a civilização e a barbárie, entre o campo e a cidade, entre a descrença e a utopia, entre o imperativo da modernidade e os grilhões do atraso”.

Já no prefácio que escreveu para a primeira edição de Deus de Caim, o acadêmico Antonio Olinto comparou o estilo de Dicke com o de Louis-Ferdinand Céline (1894-1961), embora soubesse que o escritor matogrossense nunca havia entrado em contato com a obra do francês. E observou que “o estilo e os temas de Céline andavam no ar e outros escritores os pegavam sem precisar de leitura”. Para o crítico, ambos os escritores usam “uma linguagem de ódio”, embora Dicke use também “uma linguagem de amor, não o romântico, o de puro sentimento, mas o erótico, o da loucura de Eros que, felizmente, o mais civilizado dos homens e a mais industrial das sociedades ainda são capazes de ter”.

O que é de admirar é que um romance dessa qualidade tenha passado, praticamente, despercebido pela crítica e pelas grandes editoras (e, por extensão, pelo leitor) durante tanto tempo. A culpa, com certeza, não cabe ao autor.
____________________________

DEUS DE CAIM, de Ricardo Guilherme Dicke. Taubaté-SP: Letra Selvagem, 2010, 400 págs., R$ 40,00. E-mail: letraselvagem@letraselvagem.com.br Site: www.letraselvagem.com.br
___________________

(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br
 

A poesia do cotidiano de Ronaldo Cagiano ---->
RESENHA

Adelto Gonçalves (*)

I

O sol nas feridas é um inventário lírico da trajetória de Ronaldo Cagiano (1961), cobrindo um itinerário poético que começou em 1989, com a publicação de Palavra engajada, depois de sua saída da pequena Cataguases – “para não ficar menor que ela” –, passando por uma longa vivência em Brasília, até a sua recente transferência para São Paulo – “a metrópole apavorada e catatônica” – e viagens realizadas nos últimos anos a Portugal, Irã, Espanha e Argentina.

Em “Autorretrato”, as influências sofridas pelo poeta nesse trajeto são nítidas: desde os versos gonzagueanos – “Não tive ouro nem gado/ muito menos fazenda ou legado,/ mas sinto-me mal e compulsório,/ nesse rebanho catatônico,/ nesse estábulo funcional/ em que me lançou o destino” –, passando por reminiscências drummondianas – “Esse lugar em que me (des)habito/ fronteiriço do hospício e do calabouço/ é uma Itabira pesada demais,/ a pedra no caminho/ de josés sem agora” –, ou guimarãesroseana – “(...) reivindico a terceira margem/ esse rio que nunca dorme dentro de nós” –, até uma homenagem ao poeta argentino Juan Gelman.

Na poesia de Cagiano se percebe uma tensão entre o lirismo do autor e a realidade do advogado funcionário de uma instituição bancária que se manifesta em imagens obsessivas, como se constata em “Dia sem nome”, em que o poeta/burocrata reproduz o dia a dia em que vive: “Na estação de trabalho/ os colegas cumprimentam-se/ com a mesma frieza burocrática/ de todos os dias”. (...) Ah, como dói vê-los tão mecânicos/ tão protocolares/ tão passivos e sem ênfase”.

É o que se vê explicitamente em “Rotina bancária”: “Cafetões da vida bovina/ voyeurs do coito titânico e animal/ da busca de resultados/ do aumento da produtividade”. E mais ainda em “Dia sem nome” em que consegue extrair poesia da linguagem profissional – que até assustaria Mikhail Bakhtin (1895-1975), se o filólogo russo percebesse Português – que se ouve no dia a dia das reuniões em empresas privadas e estatais, eivada de expressões inglesas que poderiam muito bem ser substituídas por palavras do vocabulário lusófono, mas que ali estão apenas para dar àqueles que as pronunciam um pretenso conhecimento: “Precisamos estar focados/ Ser pró-ativos/ verificar a expertise/ startar novas ideias/ evitar retrabalho/ eliminar os gaps e gargalos/ racionalizar os procedimentos/ diminuir custos/ otimizar resultados/ aumentar a produtividade/ o envolvimento do grupo é fundamental/ a coesão da equipe é salutar para a performance/ o feedback é indispensável”.

II

Como todo grande poeta, Cagiano se volta também para o regional, para a sua infância. Nascido no interior de Minas Gerais, na mítica Cataguases, de Rosário Fusco (1910-1977) e os “verdes” e de Humberto Mauro (1897-1983), não disfarça a influência recebida de poetas imensamente mineiros e universais como Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) ou menos divulgados como Donizete Galvão (1954), a quem homenageia reproduzindo seus versos na epígrafe de “Ressonâncias”: “Nunca sai dessa Minas/ que não termina”. Nesse poema, é de Cataguases que lembra quando diz que “ainda ecoam/ na exilada memória/ os dobrados da Banda Municipal/ e a Maria Fumaça irrompendo/ com sua rouquidão metálica/ no breu imenso da noite”.

Tendo vivido boa parte de sua trajetória profissional em Brasília, onde se formou em Direito, o poeta também carrega no peito o cotidiano da “cidade sem esquinas” e traduz em versos a evocação mirífica de suas vivências no Planalto brasileiro, onde em meio à corrupção deslavada dos mais afortunados há ainda quem more em casas de chão batido e fossas sépticas a poucos quilômetros do Palácio da Alvorada: “seus botecos suas noites/ sua música seus automóveis/ seus escândalos suas feridas/ seu festim de esgotos no Paranoá”.

Nos poemas da maturidade, o poeta mostra a sua face de globetrotter, suas impressões de viagens. Em “Voo 7264”, fala da Paris sartreana e de outros tantos intelectuais para concluir que a Cidade-Luz pode lhe ensinar mais que todas as religiões. Em “Postal”, congela na imaginação uma Buenos Aires de cartão-postal: “Da calçada do Café Tortoni/ ouço um tango a espantar-me/ o tédio e a solidão: ele se irradia auspicioso/ pela Avenida de Mayo/ indiferente à sinfonia/ repetitiva dos semáforos,/ afrontando a anarquia das buzinas/ e as indelicadezas do trânsito”.

III

Outro tema recorrente na poesia madura de Cagiano é o de sua (má) relação com a religião – ou a ausência desta em sua vida, substituída pelo culto à literatura e aos seus nomes universais. É o que se vê em “Ad nauseam”: “Quando alguém vem falar de Deus/ dou-lhe as costas/ e abro um livro. Não creio em nada”. Ou ainda em: “Onde estava Deus/, quando Hitler avançou/ com seus coturnos, suas bombas/ seus campos de concentração/ sobre toda a humanidade?” Essa irreligiosidade se extravasa quando avança contra o “catolicismo pedófilo” e o “protestantismo mercenário”, porque “essa fé não beatifica,/ senão bestifica e aliena/ porque cevada no vazio/ na falsa panaceia/ que tropeça na falácia/ que trapaça na audácia/ de um deus onisciente e autoritário/ mas duvidoso/ e impotente”.

Ainda que o leitor não seja cético nem agnóstico como o poeta, não há como deixar de se identificar com a sua agonia diante de um mundo sem saída. Feita de desespero, a poesia de Cagiano se constrói com os tijolos e a argamassa de um cotidiano profundamente brasileiro e suas tantas feridas expostas não só ao sol, mas às chuvas tropicais que, periodicamente, derrubam morros, casas e edifícios mal construídos, em meio à indiferença de gatunos travestidos de autoridades. Essa agonia também se manifesta mesmo quando o poeta se põe a reproduzir a realidade de outros países, já que o faz sempre com um olhar verde-amarelo. Por isso, pode-se dizer sem medo de errar que Cagiano está entre os melhores poetas do Brasil deste começo de século XXI.

IV

Ronaldo Cagiano é escritor, ensaísta e crítico literário. Viveu em Brasília de 1979 até recentemente, quando se transferiu definitivamente para São Paulo. Publica em diversos jornais e revistas do País e do exterior, dentre os quais Hoje em Dia, de Belo Horizonte, Jornal de Brasília, Jornal Opção, de Goiânia, Correio Braziliense e Revista Cult, de São Paulo.

Obteve o primeiro lugar no concurso Bolsa Brasília de Produção Literária 2001, com o livro de contos Dezembro indigesto. Organizou as coletâneas Antologia do conto brasiliense (Projecto Editorial, Brasília, 2001), Poetas Mineiros em Brasília (Varanda Edições, Brasília, 2001) e Todas as Gerações - O Conto Brasiliense Contemporâneo (LGE Editora, Brasília, 2006).

Publicou ainda Colheita amarga & outras angústias (poesias, São Paulo, 1990), Exílio (poesia, São Paulo, 1990), Palavracesa (poesia, Brasília, 1994), O prazer da leitura, em parceria com Jacinto Guerra (contos juvenis, Brasília, 1997), Prismas – literatura e outros temas (crítica literária, Brasília, 1997), Canção dentro da noite (poesia, Brasília, 1999), Espelho, espelho meu, em parceria com Joilson Portocalvo (infanto-juvenil, Brasília, 2000), Dezembro indigesto (contos, Brasília, 2001), Concerto para arranha-céus (contos, LGE Editora, Brasília, 2005), e Dicionário de pequenas solidões (contos, Língua Geral, Rio de Janeiro, 2006).
____________________________

O SOL NAS FERIDAS, de Ronaldo Cagiano. São Paulo: Dobra Editorial, 2011, 152 págs., R$ 30,00. E-mail: contato@dobraeditorial.com.br Site: www.dobraeditorial.com.br
___________________

(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br
 

Professor da USP visita Centro Lusófono em São Petersburgo ---->
Bruno Gomide destaca em palestra o crescimento do interesse do leitor brasileiro por autores russos nos últimos tempos


SÃO PETERSBURGO – O Centro Lusófono Camões, da Universidade Estatal Pedagógica Hertzen, de São Petersburgo, recebeu, na segunda quinzena de janeiro, a visita do professor de Literatura Russa do Departamento de Línguas Orientais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), Bruno Barretto Gomide, coordenador da pós-graduação na área.

Para alunos da Universidade Estatal Pedagógica Hertzen, o professor Bruno Gomide fez uma palestra abordando assuntos como o ensino da Língua e da Literatura Russa na USP e o grande interesse do leitor brasileiro pela literatura russa, especialmente nos últimos tempos, o que tem sido comprovado pela publicação de grande número de traduções. O professor destacou ainda o começo do interesse do leitor brasileiro pela literatura russa, a partir de traduções de segunda mão de edições francesas, lembrando que só mais tarde os livros de autores russos passaram a ser traduzidos diretamente para o português.

Durante sua estada em São Petersburgo, Gomide, em companhia da professora Diana Shpilevskaya, ex-aluna do Centro Lusófono Camões, foi recebido também pelo professor Vsevolod Bagno, diretor do Instituto de Literatura Russa da Academia das Ciências, instituição conhecida como Casa de Pushkin. Em seguida, foi recepcionado no Centro Lusófono Camões pelo professor de Português Vladimir Ivanov, que representou o diretor da instituição, professor Vadim Kopyl, afastado temporariamente por problemas de saúde. Em diálogo com alunos e ex-alunos do Centro, o professor voltou a abordar os temas de sua palestra.

Durante a visita ao Centro, Gomide ofereceu vários exemplares de Nova Antologia do Conto Russo (1792-1998), por ele organizada e lançada recentemente, além de outros livros de autores russos, todos publicados pela Editora 34, de São Paulo. Ao lado de nomes como Púchkin, Gógol, Dostoiévski, Tchekhov, Tolstói, Pasternak, Bábel e Nabókov, a Nova Antologia do Conto Russo apresenta outros autores vistos como menos conhecidos, como Odóievski, Grin, Chalámov, Kharms, Platónov e Sorókin, num total de 40.

CURRÍCULO

Bruno Gomide nasceu no Rio de Janeiro em 1972. É doutor pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com estágio de doutorado na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Realizou cursos nas Universidades de Illinois, Indiana, Cambridge e Linguística de Moscou. Foi pesquisador-visitante no Instituto Gorki de Literatura Mundial, em Moscou, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp). É o organizador do grupo de trabalho de Literatura Russa da Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic).

Tem publicado artigos em periódicos internacionais, como Tolstoy Studies Journal e Vopróssi Literaturi, e participado dos principais congressos de eslavística. Publicou o livro Da estepe à caatinga: o romance russo no Brasil (1887-1936) pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp), sua tese de doutorado, que obteve menção honrosa no prêmio de teses da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Ministério da Educação, no triênio 2004-2007.

CENTRO LUSÓFONO

Fundado em 1999, o Centro Lusófono Camões começa o ano, em média, com 15 estudantes russos de Português. Os estudantes entram no nível zero, passando para o nível médio, chegando ao nível superior. Em média, formam-se de sete a oito alunos por ano. Desde a sua fundação, o Centro já publicou em edições bilingue livros como o Guia de Conversação Russo-Portuguesa Contemporânea, Poesia Portuguesa Contemporânea (2004), que reúne poemas de 26 poetas portugueses, e Vou-me embora de mim (2007), do poeta português Joaquim Pessoa.

Em 2006, com o apoio da Embaixada do Brasil em Moscou, o Centro publicou o livro Contos e, em 2007, Contos Escolhidos, de Machado de Assis (1839-1908), ambos em edição russo-portuguesa, com prefácios/ensaios do professor Adelto Gonçalves, doutor em Literatura Portuguesa pela USP. O Centro tem também a intenção de publicar em breve uma coletânea de contos e ensaios de autores brasileiros em edição bilíngue.

SERVIÇO – As instituições, editoras e autores do mundo lusófono que quiserem ajudar a enriquecer o acervo do Centro devem enviar os seus livros para:
Prof. Vadim Kopyl
CENTRO LUSÓFONO CAMÕES
Moica 48 - UNIVERSIDADE ESTATAL PEDAGÓGICA HERTZEN k. 14
Saint Petersburg – Russia
 

O pobre, porque é pobre, pague tudo ---->
HISTÓRIA DO DIREITO
Adelto Gonçalves (*)

I

Se o desavisado leitor não sabe, fique sabendo: o título desta resenha foi tirado da Carta 8ª (verso 155) das Cartas Chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), e define, com precisão, o que foi a Justiça no Brasil colonial. Aliás, se em Portugal o teatro de Gil Vicente (1465?-1536?) revela mais sobre as magistraturas locais do que a literatura jurídica sua contemporânea, no Brasil a leitura das Cartas Chilenas, dos Sermões, do padre Antônio Vieira (1608-1697), de Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida (1831-1861), ou de relatos de viajantes pode revelar com maior nitidez a corrupção e a face conservadora dos magistrados e seus subordinados do que os papéis dos arquivos.

A frase de Critilo, alter ego de Gonzaga, ouvidor em Vila Rica de 1782 a 1788, está por trás até mesmo da motivação da conjuração mineira de 1789, embora isto ninguém goste de dizer, até porque tiraria a aura romântica do movimento – e nação nenhuma vive sem o culto a heróis. Em outras palavras: quem se dispuser a ler os versos de 146 a 167 da Carta 8ª vai perceber muito bem como funcionava a Justiça (a maiúscula está aqui só por costume) naquele tempo: os grandes contratadores, aqueles que arrematavam os contratos e arrecadavam os impostos em nome da Coroa, costumavam embolsar boa parte da arrecadação, sem repassá-la ao erário régio, aplicando os recursos em escravos, minas e propriedades particulares.

Obviamente, faziam isso com a conivência do governador e capitão-general (e, às vezes, do ouvidor e outras altas autoridades), repartindo com eles “os cabedais que seriam do reino”. Assim, esses grossos devedores podiam rolar as dívidas, que iam pagando “sem soldados à porta, com sossego”, como observava Critilo. Já o pobre, se furtasse uma galinha, podia mofar anos a fio na enxovia. Era assim há dois séculos e meio. E hoje? Mudou muito? O atilado leitor já deve ter a resposta na ponta da língua.

Mas, a bem da verdade, é preciso reconhecer que na documentação da época pode-se também localizar um ou outro remediado que tenha ido parar na cadeia, talvez porque seu cabedal não fosse suficiente para contratar um rábula mais preparado ou para “convencer” as autoridades de sua inocência. Coitado de quem viesse a ser acusado de algum crime, fosse inocente ou não: seria comido pelo meirinho, pelo carcereiro, pelo escrivão, pelo solicitador, pelo advogado, pelo inquiridor, pela testemunha, pelo julgador. “Ainda não está sentenciado, já está comido. São piores os homens que os corvos”, dizia Vieira.

E o que a conjuração de 1789 tem com isso? Ora, como se sabe, uma revolução ou um golpe de Estado só se faz com ricos que tenham tido seus interesses contrariados. Até porque o pobre só serve para bucha de canhão. E para colorir com o seu sangue alguma epopeia. No caso, os grossos devedores mineiros – leia-se João Rodrigues de Macedo e Joaquim Silvério dos Reis Montenegro – é que iriam financiar a revolta, já que não haviam chegado a um “acordo” com o novo governador, o visconde de Barbacena, para rolar mais suas dívidas. Afinal, só eles e mais um ou outro grande proprietário poderiam fornecer os escravos e a pólvora necessários para fazer explodir a revolta.

Não que Barbacena fosse diferente dos governadores anteriores, mas é que, ao contrário de seus antecessores, já viera de Lisboa com ordens expressas para não negociar com os grossos devedores em hipótese alguma. Portanto, só com uma revolução é que aqueles grossos devedores poderiam ter suas dívidas perdoadas. Aliás, os revoltosos de 1789 só não derrubaram o poder régio em Minas porque entraram em divergências antes. Afinal, Barbacena, isolado no Palácio de Cachoeira do Campo, só poderia contar com o fraco socorro de seus ajudantes-de-ordens, “sem um barril de pólvora”. Como o que queria mesmo era se livrar das dívidas, Silvério, então, foi ao vice-rei no Rio de Janeiro e pulou para o outro lado, delatando seus companheiros de conjura.

II

A que vêm estas reminiscências históricas? É para dizer que o leitor interessado em saber como a Justiça (não) funcionava no Brasil colonial não pode deixar de ler Direitos e Justiças no Brasil: ensaios de História Social, de Silvia Hunold Lara e Joseli Maria Nunes Mendonça, organizadoras (Campinas: Editora da Unicamp, 2006), que reúne artigos que constituem exemplos significativos do novo modo de tratar a história social do Direito e da Justiça, que, a rigor, teve início por aqui nos anos 80.

Em “Senhores da régia jurisdição: o particular e o público na vila de São Salvador dos Campos dos Goitacases na segunda metade do século XVIII”, Silvia Hunold Lara, professora do Departamento de História da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), observa que as elites coloniais operavam por meio de uma complexa política de alianças, lutando ao mesmo tempo por privilégios e cargos. Era a “economia do dom”, ou seja, redes clientelares em que os parentescos entre os membros das casas comerciais impunham regras e controlavam setores do comércio, tanto à época da colônia como do império. Em nome do bem comum, as câmaras concediam privilégios e mercês, que funcionavam do mesmo modo que as concedidas diretamente pelo monarca. Assim, dificilmente, alguém nascido pobre conseguia ascender na escala social.

A Justiça funcionava assim também: as penas variavam conforme a qualidade da vítima e dos réus, além de depender das circunstâncias. “Os privilégios atribuídos a cada condição social ou a determinadas posições e cargos estipulavam tratamentos diferenciados”, diz a historiadora. Dessa maneira, o exercício da justiça, antes de buscar aquilo que seria o ideal da verdade, servia para reforçar a escala hierárquica em que se organizava a sociedade.

Tal mentalidade ficou profundamente enraizada no processo de apropriação de terras na América portuguesa e continuou a valer por todo o Brasil Império e Republicano, chegando até os dias de hoje. Basta ver que os posseiros ricos sempre foram identificados como desbravadores e tomados como cúmplices do enriquecimento das províncias – muitos deles dão nomes a ruas, avenidas e rodovias ainda hoje –, o que, entre outras coisas, era o resultado de sua proximidade com o Estado e da sustentação que davam ao governo em troca de benefícios camuflados, como a arrematação de contratos dados pelas câmaras (de carne, aferição e estanques). Já os lavradores pobres que ousassem tomar um palmo de terra eram apontados como “invasores” ou “intrusos”. Ainda hoje é assim.

III

O artigo de Silvia Hunold Lara se aproxima do de Patrícia Melo Sampaio, doutora em História pela Universidade Federal Fluminense e professora do Departamento de História da Universidade Federal do Amazonas, “Viver em aldeamentos: encontros e confrontos nas povoações da Amazônia portuguesa, século XVIII”, que examina o papel das lideranças indígenas nas aldeias administradas conforme as regras estabelecidas pelo diretório pombalino e o modo como as reivindicações indígenas se inseriam na rede burocrática do Império português.

Outro artigo a destacar é o de Márcia Motta, doutora em História pela Unicamp e professora do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense, “Feliciana e a botica: transmissão de patrimônio e legitimidade do direito à terra na região de Maricá (segunda metade do século XIX)”, que discute a ausência de uma legislação capaz de assegurar a propriedade territorial no Brasil, o que permitia decisões arbitrárias, impostas por aqueles que mandavam mais. Até porque a integração da magistratura com a elite econômica e a elite governamental facilitava a corrupção, permitindo que a justiça viesse a ser manipulada por interesses particulares. Não raro, juízes usavam o Direito para interpretar cartas de doação, revogação de sesmarias, sucessões e desmembramentos de propriedades de acordo com os interesses dos poderosos locais.

Em outro artigo, “Territórios de confronto: uma história da luta pela terra nas Ligas Camponesas”, Maria do Socorro Rangel, professora do Departamento de Geografia e História da Universidade Federal do Piauí, mostra como noções díspares sobre o direito à terra conviveram e se debateram nos conflitos que colocaram de um lado grandes proprietários e, de outro, lavradores organizados pelas Ligas Camponeses nos anos 50 e 60 do século XX. Ao contrário do que ocorria em outros séculos, no século XX as disputas pela terra deixaram a área civil para se transformar em processos criminais, o que se acentuou a partir do golpe militar de 1964.

Como dizem as organizadoras na apresentação, todas essas análises evidenciam que, em determinados momentos, os recursos ao Judiciário e aos princípios do direito foram reconhecidos como estratégias privilegiadas na luta política. “Mas indicam também que o recurso aos artefatos legais não encobria as relações conflituosas entre o exercício da violência e o domínio da lei”, acrescentam.

Para as organizadoras, as histórias reunidas nos 14 artigos deste livro mostram que é impossível pensar numa história “do direito” ou “da justiça”, pois cada uma dessas noções tem significados tão distintos ao longo do tempo e tão contraditórios numa mesma sociedade que essas palavras, no singular, se tornam quase vazias de sentido. Ainda mais num país que se formou a partir da violência dos mais afortunados sobre os que nada possuíam. E que ainda hoje é vergonhosamente tido como um dos mais injustos em termos de distribuição de renda, ainda que seja a sexta maior economia do mundo, segundo o Center for Economics and Business Research, de Londres.
______________________

DIREITOS E JUSTIÇAS NO BRASIL: ENSAIOS DE HISTÓRIA SOCIAL, de Silvia Hunold Lara e Joseli Maria Nunes Mendonça (orgs.). Campinas: Editora Unicamp, 544 págs., R$ 41,50, 2006. E-mail: vendas@editora.unicamp.br Site: www.editora.unicamp.com.br
________________________

(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br
 

A vida (multifacetada) de Pagu em imagens ---->
LETRAS

Adelto Gonçalves (*)

I

A exemplo de Eça de Queiroz (1845-1900), Fernando Pessoa (1888-1935) e outros grandes nomes da Literatura em Língua Portuguesa, Patrícia Galvão (1910-1962), a musa do Modernismo brasileiro, acaba de ganhar sua fotobiografia: Viva Pagu: Fotobiografia de Patrícia Galvão (Santos: Universidade Santa Cecília-Unisanta; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2010), trabalho da professora Lúcia Maria Teixeira Furlani e do jornalista Geraldo Galvão Ferraz, filho da escritora, que reúne fotografias e textos que, na maioria, fazem parte do acervo do Centro de Estudos Pagu, da Unisanta, de Santos, e estão disponíveis no site www.pagu.com.br.

Mulher pouco convencional para o seu tempo, Patrícia Galvão teve uma trajetória ímpar na história da Literatura e é uma poucas escritoras brasileiras que atraem o interesse de estudiosos estrangeiros, como o professor norte-americano Kenneth David Jackson, da Universidade de Yale, que traduziu com Elizabeth Jackson para o inglês o seu romance Parque Industrial, publicado em 1994 pela Editora da Universidade de Nebraska.

Neste livro preparado com raro esmero por Lúcia Teixeira e Geraldo Galvão Ferraz, o leitor pode encontrar numerosas passagens da vida de Pagu, apelido que lhe foi dado pelo poeta modernista Raul Bopp (1898-1984) e pelo qual ela, nos últimos tempos, não tinha muito apreço, porque representava uma época já superada em sua vida. O leitor pode encontrar ainda uma Patrícia Galvão que hoje é difícil de imaginar que tenha existido – uma mulher fatal, como Gilda, o filme de 1946, estrelado por Rita Hayworth (1918-1987). A Patrícia Galvão jovem não só era uma mulher atraente como revolucionária, ativista, ligada às vanguardas de seu tempo, que não perdeu a dignidade nem mesmo quando submetida a torturas físicas e psicológicas pela ditadura do Estado Novo (1937-1945), uma das maiores ignomínias da História brasileira – a outra foi a ditadura militar que durou de 1964 a 1985.

Trabalho de pesquisa, que contou a ajuda e colaboração de familiares e antigos amigos e conhecidos de Patrícia Galvão, este livro procura registrar com fotos e documentos a trajetória da escritora, desde o seu nascimento em São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, cidade importante à época em que o café construía fortunas no Brasil, no seio de uma família de imigrantes alemães, os Rehder, cujo patriarca, o bisavô Nicolau, havia construído a estação de trem local. Da Patrícia menina há muitos registros: sua vida na escola primária, a época como normalista, seu irmão e irmãs e mesmo a sua iniciação precoce no mundo do amor. “Era uma menina forte e bonita que andava sempre muito extravagantemente maquiada”, como recordou num depoimento de 1978 um contemporâneo.

II

O livro mostra ainda fotos da época em que Patrícia Galvão, aos 18 anos de idade, conhece Oswald de Andrade (1890-1954), à época com 38 anos e casado com a pintora Tarsila do Amaral (1886-1973). Ela começa a colaborar como desenhista com a segunda fase da Revista de Antropofagia, que passa a ser publicada no Diário de S. Paulo, de março e agosto de 1929. Logo, o casamento de Oswald entra em convulsão, depois de um affair do escritor com a jovem Patrícia.

O casamento de Patrícia com Oswald também seria tumultuado. E, numa dessas fugas da realidade, ela vai para Buenos Aires, onde mantém contato com o grupo da revista Sur, que reunia Victoria Ocampo (1890-1979), Jorge Luis Borges (1899-1986) e outros nomes da história da literatura argentina. Em razão de outros contatos, volta convertida ao credo comunista a que se dedicará com paixão, até que, depois de muitas prisões e padecimentos, descobre com seus próprios olhos em Moscou a verdadeira face do “paraíso comunista”. Em 1933, publica o “romance proletário” Parque Industrial, disfarçada sob o pseudônimo Mara Lobo, em edição financiada por Oswald de Andrade. Uma edição com tiragem limitada, quase clandestina, com capa da própria autora.

Ao fazer uma auto-avaliação de seu passado de marxista-leninista ortodoxa, em 1938, Patrícia é expulsa do Partido Comunista Brasileiro, acusada de trotskista, em companhia de José Stacchini (1916-1988) e outros militantes, como mostra documento da época reproduzido no livro. (Stacchini, que este articulista conheceu em 1975 na antiga redação de O Estado de S.Paulo, na Rua Major Quedinho, acabaria por escrever um livro formado por reportagens panegíricas sobre os preparativos para o golpe militar de 1964, intitulado Março de 64: mobilização da audácia (1965). À época, talvez Stacchini não imaginasse no que daria aquela mobilização da direita. E a impressão que passava, mais de dez anos depois, era a de um homem desiludido com a vida e com a espécie humana). Dessa época, a Fotobiografia traz vários recortes de jornais e relatórios policiais sobre as atividades de Patrícia Galvão, então considerada perigosa “extremista”.

III

Passada a fase de ativista, Patrícia tornou-se jornalista em tempo integral e militante do teatro. Casou-se com o jornalista Geraldo Ferraz (1905-1979), que era ligado ao grupo modernista. Como Geraldo Ferraz, ex-secretário de redação do Diário da Noite, trocaria São Paulo pelo litoral paulista para dirigir a redação de A Tribuna, de Santos, onde já havia trabalhado no começo da década de 1940, a escritora o acompanharia e passaria a desenvolver no diário santista a atividade de crítica teatral e, depois, a precursora função de crítica de TV, ainda na década de 1950.

(De Geraldo Ferraz, este articulista recorda-se de vê-lo adentrando de sandálias a redação de A Tribuna, de Santos, no começo da década de 1970. Já estava afastado da direção da redação e morava na Ilha Verde, nome que dera à casa da pintora Wega Nery, com quem vivia em Guarujá. Embora a gerência do jornal habitualmente mandasse um motorista buscar as colaborações em sua casa, de vez em quando, ele fazia questão de ir à redação pessoalmente levar os editoriais que ainda estava encarregado de escrever, especialmente sobre política internacional. Depois, invariavelmente, passava pela livraria Martins Fontes, na Praça Independência, no Gonzaga, para conferir as novidades literárias).

Antes disso, o casal teve ainda uma passagem por jornais cariocas, época em que ela, escondida sob o nome de King Shelter, escreveu histórias de mistério para a revista Detective, dirigida por Nelson Rodrigues (1912-1980). Os contos seriam reeditados em 1998 no livro Safra Macabra (Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora), preparado por seu filho Geraldo Galvão Ferraz.

Em 1950, ocorre sua tentativa frustrada de militar na política partidária como candidata a deputada estadual pelo Partido Socialista Brasileiro, em São Paulo. Dessa época é o panfleto eleitoral Verdade & Liberdade em que faz uma dura crítica à direita e ao getulismo – e toda a violência aos direitos humanos que foram praticados durante o Estado Novo –, mas não deixa de condenar a esquerda stalinista e o Partido Comunista Brasileiro. Dizia: “Dos vinte aos trinta anos, eu tinha obedecido às ordens do Partido. Assinara declarações que me haviam entregue, para assinar sem ler”.

IV

A última etapa da vida de Patrícia Galvão é marcada por sua atuação cultural. Em A Tribuna, a 27 de novembro de 1955, escreve uma página dedicada ao poeta Fernando Pessoa para assinalar os 20 anos de sua morte. Em 1956, faz outra página dedicada a Dostoievski (1821-1881), por ocasião do 75º aniversário de sua morte. Essas e outras páginas também estão reproduzidas nesta Fotobiografia. Em 1959, dizia que a função da imprensa, num país de tamanha pobreza para as coisas da inteligência, é estimular a cultura. Mais de meio século depois, esta é uma frase que continua mais válida do que nunca, embora nos dias hoje o que menos se vê na grande imprensa são textos culturais.

É claro que uma vida tão multifacetada como a de Patrícia Galvão não cabe em poucas e resumidas palavras. Mas esta Fotobiografia cumpre bem o seu papel, ao permitir que se tenha uma visão mais nítida de uma trajetória extremamente singular na história da Literatura Brasileira. Trabalho que a história da Literatura Brasileira fica a dever a Lúcia Maria Teixeira Furlani e a Geraldo Galvão Ferraz.

Lúcia Maria Teixeira Furlani, mestre e doutora em Psicologia da Educação, é presidente da Universidade Santa Cecília e autora de Autoridade do professor – meta, mito ou nada disso, Fruto proibido – um olhar sobre a mulher; Pagu – livre na imaginação, no espaço e no tempo; A claridade da noite – os alunos do ensino superior noturno e Segredo da longa vida, entre outros. Já Geraldo Galvão Ferraz, jornalista, crítico literário e tradutor, passou pelas redações de O Estado de S.Paulo, Jornal da Tarde, Editora Abril e Revista Cult. É autor de Livro, ferramenta de progresso e de A empolgante história do romance policial.
______________________

VIVA PAGU: FOTOBIOGRAFIA DE PATRÍCIA GALVÃO, de Lúcia Maria Teixeira Furlani e Geraldo Galvão Ferraz. Santos: Universidade Santa Cecília (UNISANTA). São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 348 págs., 2010. E-mails: lucia@unisanta.br; livros@imprensaoficial.com.br Sites: www.unisanta.br; www.imprensaoficial.com.br
________________________

(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br
 
 
 
Cria aqui o teu Site Grátis!       Create your Free Website! Denunciar este site  |  Publicidade  |  Sites Grátis no Comunidades.net