Adelto Gonçalves
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Pensar o Brasil com Sérgio Buarque de Holanda ---->
Adelto Gonçalves (*)

I

Para quem não se conforma com os atuais altos índices de popularidade do presidente Luís Inácio Lula da Silva (aprovado por mais de 77,7% da população brasileira, um recorde histórico), a leitura de uma palestra dada por Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) na Escola Superior de Guerra, no Rio de Janeiro, em 1967, no começo da travessia do conturbado regime militar (1964-1985), pode ajudar a explicar muita coisa.

A palestra, “Elementos básicos da nacionalidade: o homem”, encerra o livro Sérgio Buarque de Holanda: perspectivas, coletânea que reúne ensaios de 28 estudiosos de várias gerações e procedências, além de imagens, bibliografia e textos poucos conhecidos do próprio historiador, lançada pela Editora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pela Editora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e organizada pelos professores Pedro Meira Monteiro, da Princeton University, e João Kennedy Eugênio da Universidade Federal do Piauí.

No texto, Sérgio Buarque de Holanda recorda uma observação de Joaquim Nabuco (1849-1910) sobre uma suposta submissão do povo brasileiro, que seria “maior do que a das outras nações sul-americanas”, o que poderia explicar um pouco o atual conformismo da população com o que o economista chileno Sebastián Edwards, professor da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA) e consultor econômico do governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, já definiu como “economia da melancolia”, ou seja, uma trajetória sem crises, mas também sem crescimento.

À época, na casa daqueles que haviam derrubado e enxovalhado as garantias individuais dos cidadãos, Sérgio Buarque de Holanda citou Joaquim Nabuco para contestá-lo, argumentando que não se podia dizer que as tentativas de governos ditatoriais haviam encontrado o povo brasileiro cegamente submisso ou inerte. “E se é certo que esse povo recebeu com aparente indiferença a mudança de regime em 1889, e não se deixou abalar, depois disso, por tendências restauradoras, para tanto há de ter contribuído largamente o sentimento generalizado de que a Monarquia já tinha cumprido sua missão e pouco adiantaria querer sustentá-la ou restaurá-la a qualquer preço”, dizia.

Àquele tempo, um ano antes da grande noite do Ato Institucional nº 5 que se abateria sob a Nação, Sérgio Buarque de Holanda deixava claro que acreditava que, apesar da sua ancestral submissão aos poderosos de plantão, o povo brasileiro permaneceria fiel aos princípios democráticos. Para ele, historicamente, o Brasil, depois de uma fase mais ou menos prolongada de ditadura, empenhava-se sempre por voltar à aplicação de constituições escritas ou das consultas eleitorais. Por trás da frase, com certeza, estaria a sua esperança de que a ditadura, que já levava três anos, logo refluísse e o País voltasse à senda democrática. Aconteceu, porém, o contrário: Sérgio Buarque de Holanda nem viveria para ver o fim do regime ditatorial.

Ao se referir ao regime igualmente de exceção que se inaugurou em 1930 -- que, até hoje, é chamado de Revolução de 30 por historiadores pouco perspicazes --, não deixa de mostrar Getúlio Vargas como homem que se via como chamado pela Providência para guiar a nação em crise, exercendo forte apelo sobre as grandes massas, “lançando os dados nesta ou naquela direção, ora para a direita, ora para a esquerda, numa versatilidade que só não enganava aos muito precavidos ou aos muito teimosos”. Qualquer semelhança com o governante atual, descontado o fato de que vivemos hoje sob regime democrático com os devidos freios a aventuras caudilhescas, não é mera coincidência.

O resultado disso, dizia Sérgio Buarque de Holanda, foi que, “conservadas as massas, assim, na dependência do poderio de um homem, era como deixá-las em estado de menoridade ou de imaturidade para seguir os rumos naturais”. De onde vem, portanto, essa submissão natural das massas brasileira? Essa vocação para se deixar levar por um homem providencial?

Dizia Sérgio Buarque de Holanda que viria das duas sociedades diferentes nos níveis e modos de vida que existem no Brasil: a que, abrangendo a maioria do País e de sua população, exibe ainda hoje traços coloniais, e aquela que, representada sobretudo pelo Estado de São Paulo, não receia o progresso nem o futuro. Na primeira se achariam ainda encastelados os resíduos de um passado renitente e se apresentam condições arcaicas, que lembram as da Índia e do Egito, enquanto na outra, mais ativa e progressista, encontram-se aspectos capazes de evocar Nova Iorque ou Chicago.

Mais de 40 anos depois, essa análise, feita com base nas idéias do historiador francês Jacques Lambert (1891-?), autor de Os dois Brasis (São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1969), ainda seria válida? Sem dúvida, porque o Brasil, se cresceu muito nas últimas quatro décadas, poucas modificações sofreu em sua estrutura social e política porque continua refém do egoísmo e da cegueira das oligarquias que o dominam.

Em outras palavras: não houve nenhuma revolução social nem qualquer ordenação nova na sociedade brasileira. Até porque as oligarquias estaduais -- aquelas mesmas oligarquias que se achavam representadas no Parlamento ao tempo da Monarquia e que ganharam maior peso com a República -- ainda continuam suficientemente bem representadas no Congresso, sempre dispostas a bloquear todos os esforços que visem eventualmente a romper o status quo.

Basta ver que, até agora, passados seis anos de governo Lula, o Congresso não se dispôs a votar uma reforma tributária para valer, que desonere os custos das empresas e dos cidadãos assalariados. A ponto de o País continuar a contar com duas espécies de cidadãos: de um lado, aqueles que pagam compulsoriamente ao Estado; de outro, aqueles que roubam o Estado. Até porque os que fazem parte das grandes massas marginalizadas nem sequer podem ser chamados de cidadãos.

II


Entre os ensaios dos analistas convidados a participar deste livro, um dos mais instigantes -- embora seja difícil escolher os melhores, entre tantos tão bem escritos e pensados -- é “Raízes do Brasil y El Laberinto de la Soledad: una comparación” em que José Ortiz Monasterio, do Instituto Mora, do México, compara as obras de Sérgio Buarque de Holanda e Octavio Paz (1914-1998), encontrando em ambas enormes semelhanças, já que tomam elementos da história, da sociologia, da literatura, da psicologia e outras disciplinas a ponto de tornar sua classificação extremamente difícil.

Já em “Sérgio Buarque de Holanda, historiador das representações mentais”, Ronaldo Vainfas, professor de História da Universidade Federal Fluminense (UFF), admite que pensar Sérgio Buarque como historiador das mentalidades avant la lettre seria uma tentação fácil, mas que pode ser inexata, já que Visão do Paraíso (1958) é livro de tamanha complexidade teórica e erudição que seria impossível classificá-lo em qualquer esquema rígido ou escola historiográfica.

Vainfas lembra ainda que Visão do Paraíso, quando saiu à luz, estava na contramão da história e, por isso, ficou relegado ao ostracismo por várias anos. E só na década de 80 acabaria por adquirir a importância devida, depois de ter servido de inspiração para Laura de Mello e Souza escrever O Diabo e a Terra de Santa Cruz (1986), livro que, segundo o professor, inaugurou a leva de pesquisas da hoje chamada “nova história cultural” no Brasil. Como se vê, os ensaístas concordam que a obra de Sérgio Buarque de Holanda é de tamanha amplidão que não pode ficar restrita a categorias ou classificações.

III

Em “Raízes do Brasil: uma releitura”, Brasil Pinheiro Machado (1907-1997), antigo professor de História na Universidade Federal do Paraná, destacou também a análise de Sérgio Buarque de Holanda segundo a qual o liberalismo, nas democracias sul-americanas, tendem para o caudilhismo, diante da ausência ou inconsistência dos órgãos partidários. É o que se vê, hoje, na figura do presidente Lula, que paira acima dos partidos, inclusive daquele que fundou e que lhe serviu de apoio para ascender ao poder. Curiosamente, o prestígio político e popular de Lula, segundo as mesmas pesquisas, não surge, porém, como uma força capaz de se transferir para um possível candidato à sua sucessão. É, portanto, pessoal e intransferível, o que lhe permite sonhar com um tranquilo retorno à cadeira presidencial em 2014.

IV


Sérgio Buarque de Holanda, ainda estudante, começou a colaborar em publicações como Correio Paulistano, A Cigarra e Revista do Brasil. De tendências monarquistas, influenciado pela leitura de Eduardo Prado (1860-1901), autor de A ilusão americana (1893), que considerava funestos os transplantes mecânicos das instituições dos Estados Unidos, como fizeram os primeiros republicanos no Brasil, o futuro historiador mudou-se para o Rio de Janeiro em 1921, matriculando-se na Faculdade de Direito.

Ligado aos modernistas de São Paulo, tornou-se representante da revista Klaxon no Rio de Janeiro. Em 1927, foi diretor de um jornal em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, e, em 1929, viajou para a Europa, sobrevivendo em Berlim com colaborações para jornais brasileiros e trabalhando em agências de notícias, como a Havas e a Associated Press.

Retornou ao Brasil em 1930, publicando então na revista Espelho o ensaio “Corpo e alma do Brasil”, primeira versão do que seria o livro Raízes do Brasil (1936). Continuou a trabalhar na Associated Press e a coloborar como crítico literário no Diário de Notícias. Trabalhou ainda no Instituto Nacional do Livro. Em 1944, começou a trabalhar na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e publicou Cobra de vidro, reunindo textos sobre crítica literária, sociologia, história e temas afins. Em 1945, saiu o seu primeiro livro de pesquisa em história, Monções.

Naquele mesmo ano, assinou um manifesto contra a ditadura de Getúlio Vargas. Em 1946, mudou-se definitivamente para São Paulo, dedicando-se sobretudo à pesquisa histórica, embora continuasse a colaborar em jornais, como a Folha Carioca e a Folha de S.Paulo. Entre 1946 e 1956, foi diretor do Museu Paulista, mas, entre 1952 e 1954, atuou ainda como professor na Itália. De volta, retomou a direção do Museu Paulista, só o deixando para assumir a cadeira de História da Civilização Brasileira na Faculdade de Filosofia de São Paulo. Por essa época, publicou Caminhos e fronteiras (1957).

De 1958 é a primeira edição de Visão do Paraíso: os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil, apresentado originalmente como tese para a cátedra de História da Civilização Brasileira. Em 1972, como responsável pela História Geral da Civilização Brasil, da qual se encarregou entre 1960 e 1972, publicou Do Império à República, que formava o volume V daquela coleção.

Em 1979, publicou Tentativas de mitologia, em que reuniu ensaios semelhantes aos que incluíra em Cobra de vidro. Em 1980, o antigo pensador de tendências monarquistas inscreveu-se como membro-fundador do Partido dos Trabalhadores (PT), que, antes de chegar ao poder com a eleição de Luís Inácio Lula da Silva à presidência da República em 2002, anunciava-se como uma agremiação de tendências socialistas. Morreu em São Paulo, em 4 de abril de 1982.

Deixou inacabado Capítulos de literatura colonial, que deveria ter sido o sétimo volume da História da Literatura Brasileira, dirigida por Álvaro Lins, livro organizado e prefaciado por Antonio Candido em 1991. Em 1996, Antonio Arnoni Prado organizou O espírito e a letra, coletânea em dois volumes de suas críticas publicadas em jornais entre 1920 e 1959. Sérgio Buarque de Holanda screveu ainda uma extensa introdução à coletânea de textos do historiador alemão Leopold von Ranke (1795-1886), O atual e o inatual em L.von Ranke (1979), e o livro O extremo Oeste, publicado postumamente em 1986.

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SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA: PERSPECTIVAS, de Pedro Meira Monteiro e João Kennedy Eugênio (org;).. Campinas: Editora da Unicamp. Rio de Janeiro: EdUERJ, 719 págs., 2008.
E-mails: vendas@editora.unbicamp.br
eduerj@uerj.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
 

Ondjaki: a reinvenção da linguagem ---->
LETRAS AFRICANAS




Adelto Gonçalves (*)

I

Nascido em Luanda em 1977, Ondjaki, licenciado em Sociologia, prosador, às vezes poeta e roteirista de documentários, já pouco tem a ver com a literatura de afirmação nacional nascida à época da independência de Angola em que se destacaram Agostinho Neto (1922-1979) António Jacinto (1924-1991), Uanhenga Xitu (1924), António Cardoso (1933), Luandino Vieira (1935), Arnaldo Santos (1935), Manuel Rui (1941), Jorge Macedo (1941), Pepetela (1941), Boaventura Cardoso (1944), David Mestre (1948), Kudijimbe (1955) e outros.

Àquela época, anos 60-70, quase todos os poetas e romancistas angolanos viveram dramas pessoais ligados ao compromisso político com a independência de Angola -- a maioria engajou-se no movimento de libertação nacional dentro e fora do país e muitos deles tiveram de cumprir pesadas penas de reclusão, cujas experiências se refletiram no que escreveram.

Com o fim do colonialismo, a maioria acabou por abdicar de sua liberdade pessoal para ajudar no que entendiam que seria a construção do país, tornando-se, assim, funcionários do Estado pretensamente socialista. Antes de escritores, comportaram-se como soldados de um regime que prometia o paraíso na terra. Muitos deles, valeram-se das boas relações do novo regime com os países do Leste Europeu -- que era o que lhes estava à mão -- para completar suas formações acadêmicas ou, simplesmente, participar de encontros internacionais de jovens escritores na antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) ou em países asiáticos ou em outras nações africanas.

Como se sabe, uma boa forma de ressecar a capacidade criativa de escritores é atrelá-los às chamadas razões de Estado. Não que as causas, à época, fossem injustas ou sem méritos. Pelo contrário. Mas é que, passada a euforia da independência, toda revolução tende a cristalizar-se com a sedimentação dos interesses daqueles que chegaram primeiro ou mais longe na máquina burocrática do Estado.

E não há escritor, por mais imaginativo e inventivo que seja, que possa produzir literatura de alta qualidade se, em vez de engajar-se apenas com a sua própria consciência, passa a defender as idéias ou os interesses das lideranças de um partido ou de um segmento político. Foi o que ocorreu, por exemplo, com os romancistas Jorge Amado (1912-2001) e Graciliano Ramos (1892-1953) à época em que escreviam romances e outros textos sob a orientação implícita do Partido Comunista Brasileiro.

De qualquer maneira, as amarras ideológicas, se impedem o afloramento da consciência crítica, não são suficientemente tenazes a ponto de bloquear por completo a capacidade criativa, pois algo sempre escapa. Afinal, é possível encontrar-se períodos de alta qualidade até mesmo em panfletos de Jorge Amado, como O Cavaleiro da Esperança, biografia do líder comunista Luís Carlos Prestes (1898-1990), publicada em 1944, ou em Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos (1892-1953), publicação póstuma de 1953 que, como se sabe agora, teve vários parágrafos cortados por familiares do escritor para atender à orientação do PCB à época “em nome da causa”.

Por essa razão, como observa Luis Kandjimbo, notável ensaísta e crítico literário de Angola, entre os escritores angolanos que surgiram no bojo do movimento de independência do país na década de 1970, “há uma descontinuidade observável na escrita de ficção e nos padrões estéticos, provocada pela excessiva valorização de temas literários marcados pela ideologia política e sua introdução nos manuais escolares”. Se isso hoje já soa como excessivamente datado e, muitas vezes, como uma forma ingênua de se fazer literatura, por outro lado, é de admitir que essa subserviência à “causa” tampouco foi capaz de impedir o afloramento de uma literatura de boa qualidade da qual os escritores mais recentes são tributários.

II


Nascido já em país independente, Ondjaki, naturalmente, não podia carregar dentro de si o sentimento anticolonialista, tendo sua infância sido embalada pelas invectivas pretensamente revolucionárias que permeavam a educação popular promovida pelo governo de seu tempo. No entanto, embora já nascido livre do colonialismo -- mas não do triste espetáculo da opressão das minorias ricas sobre as maiorias deserdadas --, pôde seguir outro rumo em sua atividade literária, ainda que não deixe de repetir experiências que, décadas antes, já haviam sido vividas por Luandino Vieira e outros romancistas inventivos da Angola da década de 1970, já que os musseques (favelas), os jogos de futebol nos terrenos baldios, as feiras populares e a vida dos pés-descalços continuavam a fazer parte do cotidiano da Luanda de sua infância e adolescência, como fazem ainda hoje.

Em seu terceiro romance, AvóDezanove e o segredo do soviético, publicado em 2008 pela Editorial Caminho, de Lisboa, e pela Editorial Nzila, de Luanda, seguindo os caminhos abertos por Luandino Vieira, Antônio Cardoso, Manuel Rui, Antônio Santos e outros, que já haviam rompido com a influência do padrão literário de Portugal, Ondjaki pôde dar vazão outra vez a todas as angolanidades que sua memória retém dos anos 80, marcada principalmente pela presença de soldados, professores e técnicos soviéticos e cubanos deslocados para Angola dentro do contexto da Guerra Fria.

Esse mundo, como se sabe, desapareceu ao final de 1989 com o desmoronamento do regime soviético e a dissolução da URSS. Portanto, as memórias de Ondjaki são anteriores aos seus 12 anos de idade, como se percebe pela passagem em AvóDezanove e o segredo soviético em que se refere a gigantescas obras do Mausoléu na Praia do Bispo, “um lugar que andavam a construir para guardar o corpo do camarada presidente AgostinhoNeto, que andava estes anos todos bem embalsamado por uns soviéticos craques nessa arte de manter uma pessoa ainda com boa aspecto de se olhar”.

Entre as personagens, há, naturalmente, várias dessas figuras estranhas ao lugar, como o Camarada Botardov, corruptela de boa-tarde, a maneira arrevesada como um russo cumprimentava as pessoas de manhã cedo ou já à noite: bótard. Portanto, ao contrário de seu romance de estréia, Bom dia camaradas, publicado em Angola pela Edições Chá da Caxinde em 2000, em Portugal pela Editorial Caminho três anos depois e no Brasil em 2006 pela Editora Agir, do Rio de Janeiro, com prefácio do romancista Luiz Ruffato (1961), em que uma criança conta seu dia-a-dia, seu convívio com os amigos e com os professores cubanos que ensinavam na escola, em AvóDezanove e o segredo do soviético, é a presença dos russos a sua marca principal, fatos que, até agora, ao que se sabe, talvez porque ainda recentes, ainda não haviam sido registrados pela ficção angolana. Eis, afinal, o que diferencia o jovem escritor Ondjaki de seus antecessores em Angola. E que o levou a já estar traduzido para outros seis idiomas.

Em AvóDezanove e o segredo do soviético, pode-se perceber, no entanto, aqui e ali resquícios deixados pela convivência com os cubanos, especialmente em alguns vocábulos. Afinal, os cubanos -- soldados, técnicos e professores -- estiveram em Angola de 1975 a 1991, transmitindo expressões que foram incorporadas à linguagem popular. É de assinalar que Ondjiaki guarda boas lembranças dessa presença, especialmente de seus professores cubanos, aos quais se refere como pessoas “muito dignas, com um sentido de irmandade muito forte”.

III

Seja como for, apesar dessa abordagem inusitada ao olhar de fora, não deixa Ondjaki também de seguir uma tradição na língua portuguesa que vem de poetas setecentistas como Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), que sempre que podia criava um neologismo ou inventava um verbo a partir de um substantivo, passando por romancistas brasileiros como Guimarães Rosa (1908-1967), que recriou o linguajar falado nos sertões de Minas Gerais e Goiás, chegando ao exemplo atual do moçambicano Mia Couto (1955).

Assim é que se lê em AvóDezanove e o segredo do soviético que há “peixes devagarosos no mar” ou que as pessoas vão “matabichar” (tomar o pequeno almoço, em Portugal, ou o café da manhã, no Brasil), o que denota a preocupação do autor em reinventar a linguagem popular angolana que já não está presa ao padrão lusitano do bem-falar, mas que, permeada por expressões do quimbundu, língua do grupo bantu de Angola, não deixa de ser uma variante auspiciosa do português. E uma garantia de que o idioma haverá de ser preservado por muito tempo no continente africano.

A exemplo dos romancistas angolanos mais antigos, Ondjaki não passou ao largo da influência da literatura brasileira. Em AvóDezanove e o segredo do soviético deixa explícitas suas dívidas literárias com Clarice Lispector (1920-1977), que está presente do começo ao fim do livro, não só com uma epígrafe tirada de um trecho de Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (1969), mas na abertura de uma carta dirigida pela poeta e historiadora angolana Ana Paula Tavares (1952) ao autor, num diálogo em que ambos recordam a Luanda de suas vidas e de seus sonhos (“uma serra antiga, o cheiro da goiaba, meninas e missangas”, diz a poeta).

Como já assinalou Luiz Ruffato, pode-se desconfiar de que Ondjaki também já andou lendo os brasileiros Manoel de Barros (1916), Adélia Prado (1935) e Raduan Nassar (1937), além de poetas canonizados como Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e Manuel Bandeira (1886-1968). Mas isso pode ser também resultado da mania que todos os críticos literários temos de classificar e rotular autores, colocando-os dentro de gaiolas metafóricas.

Ainda que tenha produzido um relato lírico e, ao mesmo tempo, divertido, Ondjaki não deixa de permear seu livro com uma certa ironia em relação ao poder ilimitado do regime de partido único, ao colocar uma personagem a dizer que o JornalDeAngola não publicava mentiras, mas “verdades que o camarada presidente é que autoriza a saírem lá”.

Em resumo: a exemplo do romance de estréia, Bom dia camaradas, e de seu segundo romance, Quantas madrugadas tem a noite (Lisboa, Editorial Caminho, 2004), AvóDezanove e o segredo do soviético trata-se de uma autobiografia ficcionalizada, em que o autor recria tipos que povoaram sua infância, numa Luanda que ainda está lá com seus bairros degradados em meio a uma urbe que já se mostra moderna e que pode soar familiar não só ao leitor brasileiro, mas também ao português que, nos últimos anos, acostumou-se a conviver com uma extensa colônia de angolanos e outros africanos que transformaram o dia-a-dia de cidades periféricas de Lisboa, como Oeiras, Agualva-Cacém, Odivelas e outras, deixando-as menos européias e mais africanas.

IV


Ondjaki, que em umbundu significa “guerreiro”, é o nome literário de Ndalu de Almeida, descendente de portugueses e angolanos que ainda carrega em sua árvore genealógica um bisavô cônsul holandês. É, portanto, um exemplo perfeito da mestiçagem que caracteriza o povo angolano. Além de desenvolver estudos de doutoramento na Universidade Oriental de Nápoles, Ondjaki escreve textos para o cinema e já co-realizou um documentário sobre a cidade de Luanda (Oxalá cresçam Pitangas – histórias de Luanda, 2006). É membro da União dos Escritores Angolanos.

Além dos romances Bom dia camaradas e Quantas madrugadas tem a noite, escreveu a novela O assobiador (2002), os livros de contos Momentos de aqui (2001) e E se amanhã o medo (2004), o livro de narrativas curtas Os da minha rua (2007) e ainda os livros de poesia Actu sanguíneu (2000) e Há prendisajens com o xão (2002) e a obra infanto-juvenil Ynari, a menina das cinco tranças (2004). Interessa-se ainda por interpretação teatral e pela pintura.

Alguns livros seus foram traduzidos para francês, espanhol, italiano, alemão, inglês e chinês.Com Actu sanguíneu obteve menção honrosa no Prêmio Antônio Jacinto (Angola, 2000). Já com E se amanhã o medo, conquistou o Prêmio Sagrada Esperança (Angola, 2004) e o Prêmio António Paulouro (Portugal, 2005). Foi finalista do prémio Portugal Telecom (Brasil, 2007). Com Os da minha rua, ganhou o Grande Prêmio de Conto Camilo Castelo Branco, de 2007, em Portugal.

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AVÓDEZANOVE E O SEGREDO DO SOVIÉTICO, de Ondjaki. Lisboa: Editorial Caminho, 198 págs., 2008, 12,90 euros. Luanda: Editorial Nzila. www.editorial-caminho.pt
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), entre outros. E-mail: adelto@unisanta.br
 

Montezuma, o lampadário de Lisboa ---->
LETRAS

Adelto Gonçalves (*)

I

Com exceção do suplemento Das Artes, Das Letras do jornal O Primeiro de Janeiro, do Porto, que vem publicando todas as semanas seus artigos póstumos, partiu do Brasil -- mais especificamente de Goiânia, no cerrado do Centro-Oeste -- a primeira homenagem à memória de Joaquim de Montezuma de Carvalho (1928-2008), falecido a 6 de março. E veio em forma de poema, “Joaquim de Montezuma de Carvalho, o lampadário de Lisboa”, de autoria de Gabriel Nascente (1950), que faz parte do livro A poesia de Gabriel Nascente em Portugal, que reúne ainda dois textos do pensador português e um deste articulista sobre a arte do poeta goiano, todos publicados no Primeiro de Janeiro, além de parte da correspondência trocada entre ambos nos últimos anos.

Embora não tenha conhecido pessoalmente Montezuma de Carvalho, Nascente solidificou sua amizade com o escritor português a partir de uma correspondência epistolográfica assídua nos últimos tempos. Avesso à correspondência digital pela Internet, assim como Nascente, Montezuma, como fazia com a maioria de seus amigos, engordava suas cartas com fotocópias de textos e ilustrações que, geralmente, “descobria” em suas pesquisas no Arquivo Histórico Militar, de Lisboa, em frente à Estação de Santa Apolônia, que fica a escassos 200 metros da Rua dos Remédios, na Alfama, onde morava.

Em junho de 2007, foi com grande entusiasmo que Montezuma recebeu o livro Viagem às criptas de Dante, que traz um longo poema de Nascente, além de apresentar na contracapa um trecho do artigo com que o crítico recebeu o livro anterior do poeta, a antologia Inventário Poético (Goiânia, Editora Alternativa, 2005). “A chispa de Dante tocou este poeta do interior do Brasil”, diz Montezuma logo nas primeiras linhas da recensão que fez ao livro, considerando-o “um poemário de grande poder sugestivo e fruto de um talento recriador”.

O que também chamou a atenção de Montezuma, além da beleza dos versos, foi a referência no Canto Segundo ao lago Bulicame:

(…) É certo, eu me ia; e, me indo,
naquele lago -- o Bulicame, fumegante --
após o Cocito, gelado, um susto tive,
ao ouvir de Farinata, tão agros vaticínios,
de minha volta à luz dos páramos. (...).

Lembrando-se logo de Boliqueime, a terra algarvia do atual presidente da República portuguesa, o professor doutor Aníbal Cavaco Silva, Montezuma deslocou-se ao sempre à mão Arquivo Histórico Militar. Haveria alguma relação entre o Bulicame de Dante e o Boliqueime (ou Boliquême, que assim também se escreveu por algum tempo)? Encontrou uma pista no Dicionário Corográfico de Portugal Continental e Insular, de Américo Costa, v.3, de 1932, ligando bulicame a “olhos d´água”.

Depois, num dicionário da lingua italiana, constatou que bulicàre significa o bulir da água. Logo, concluiu que, se os genoveses, sicilianos e venezianos nos séculos XIII, XIV e XV andavam em contínua faina de pesca de atum e baleia nas costas do Algarve, principalmente em Lagos, Boliqueime foi nome dado pelos italianos à aldeia portuguesa.

Depois, constatou que Nascente buscou inspiração no Canto Décimo Quarto da Divina Comédia, que constitui o sétimo círculo do “Inferno”, onde habitam os homens violentos:

(…) Qual do Bulicame sai um regato cuja água
as meretrizes dividem entre si, tal aquele rio
descia através da areia do terceiro girão. (…).

II

De livro em livro, constatou que Boliqueime e Bulicame são a mesma coisa. E intuiu o que ninguém, ao que se saiba, antes assinalara: a origem italiana (antes da existência da Itália como nação organizada) do povoado algarvio. Foi o que escreveu no ensaio “O Buliqueime de Dante e o de Aníbal Cavaco Silva… e a sombra de Maquiavel”, publicado no suplemento Das Artes, Das Letras d´O Primeiro de Janeiro, de 25/6/2007, a uma época em que Montezuma já se encontrava mal de saúde, com saídas constantes de casa para fazer exames médicos ou ir ao hospital, como me confidenciou por telefone a 25/7/2007, uma quarta-feira, data de nossa última conversa.

O poemário, porém, tanto o entusiasmara que voltaria ao assunto, com o ensaio “Viagem às Criptas de Dante com Gabriel Nascente, Teixeira de Pascoaes, Murilo Mendes, Ludovico Silva, Fidel Castro, Frei Betto…”, publicado a 10/9/2007, no qual diz que se trata de “um poema a causar calafrios”. Afirma: “Vejo-o como uma condensação superior da Divina Comédia de Dante (1265-1321), o vasto poema sacro a descrever Inferno, Purgatório e Paraíso, os três territórios dogmáticos da religião católica e não só (a pulsar também com os evangelistas das religiões reformadas após Lutero e outros, com os muçulmanos e alguns mais geógrafos do nosso além-morte)”.

E acrescenta: “Ele substantivou o seu denso e agônico poema com a receita proposta por Dante, não a de usarem quaisquer palavras mas só aquelas com o poder musical de reproduzirem as imagens malignas ou benignas do outro-mundo. Gabriel Nascente, decerto sem o saber mas com o talento inato do artista de o saber, seguiu os passos de Dante no Canto XXXII do Inferno, a indicarem a necessidade de se encontrarem rimas ásperas e roncas como símile das realidades”.

Transcreve-se aqui estes rasgados elogios não só para dar a dimensão da importância do trabalho poético de Gabriel Nascente -- nem sempre reconhecido no eixo intelectual de Rio de Janeiro e São Paulo -- como para oferecer ao leitor, que não teve ainda a oportunidade de conhecer um pouco da obra de Montezuma, uma amostra de seu estilo barroco, que muito faz lembrar o do padre Antônio Vieira (1608-1697), na mesma explosão de idéias e imagens que só mesmo aqueles autores extremamente eruditos são capazes de produzir.

III

Montezuma de Carvalho nasceu na freguesia de Almedina, em Coimbra, em cuja Faculdade Direito se licenciou. Filho do filósofo Joaquim de Carvalho (1892-1958), com o diploma debaixo do braço, mudou-se para Angola e Moçambique onde exerceu funções nos registros e na magistratura (Nova Lisboa, Inhambane e Lourenço Marques) até 1976, quando retornou a Portugal para exercer a advocacia em Lisboa.

Em 1951, ainda estudante, tomou a iniciativa de homenagear o poeta Teixeira de Pascoaes (1877-1952), publicando o livro coletivo A Teixeira de Pascoaes, a exemplo do que fez recentemente em relação a Eugénio de Andrade (1923-2005), com textos de autores que convidou para a tarefa. Os textos também foram publicados no suplemento Das Artes, Das Letras do jornal O Primeiro de Janeiro e, depois, transformados no livro A Jeito de Homenagem a Eugénio de Andrade (Porto, Fólio Edições, 2004).

Em 1957, lançou em Angola Epistolário Ibérico: Cartas de Pascoaes e Unamuno. Em 1958, organizou os livros Joaquim de Carvalho no Brasil e Miscelânea de Estudos a Joaquim de Carvalho. Fundou, ainda, na Figueira da Foz, a Biblioteca-Museu Joaquim de Carvalho e a Sala Joaquim de Carvalho, esta última ligada à Biblioteca Municipal.

De 1958 a 1965, financiado pelo município de Nova Lisboa, Angola, organizou e publicou os quatro tomos do Panorama das Literaturas das Américas, de 1900 à Actualidade, obra até hoje sem equivalente na sua dimensão global e na qualidade de seus colaboradores diretos. Em 1965, apresentou os escritores luso-brasileiros nascidos no século XX na obra francesa Ecrivains Contemporaine (Paris, Ed. Mazenod). Em 1963, fez parte do júri internacional que atribuiu ao mexicano Octavio Paz o Grande Prix de Poésie, prêmio belga.

No Brasil, colaborou especialmente nos diários O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde e A Tribuna, de Santos. Colaborou ainda em numerosas revistas do Brasil e da Argentina. Sua última colaboração saiu na Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, nº 53, out.-dez.2007, pp.169-179, o artigo “Os três sepulcros de Viriato e a sua ressurreição”, que, provavelmente, não chegou a ver, já que só nos últimos dias a instituição distribuiu para seus colaboradores os seus três últimos números.

Publicou e organizou numerosos livros, entre os quais Sor Juana Inês de la Cruz e o Padre Antônio Vieira (1998) e Cervantes em Portugal (2005). Em 2004, a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra deu à estampa Drummond e os portugueses -- Drummon (D) Tezuma: correspondências entre Carlos Drummond de Andrade e Joaquim de Montezuma de Carvalho, organizado por Maria Aparecida Ribeiro e Eliane Vasconcelos.

IV

Diante dos elogios de Montezuma a Gabriel Nascente, está claro que nada mais é necessário acrescentar aos dois livros aqui resenhados. Por isso, melhor aproveitar o espaço com a reprodução de um trecho do poema de nove cantos “Joaquim de Montezuma de Carvalho, o lampadário de Lisboa” que Nascente fez em homenagem póstuma ao pensador português:


(…)Ó grande Montezuma de Carvalho, o maquinista
das grandes expressões neo-revolucionárias -- a guiares
o trem de textos pelas vagas do louco tempo:
uí, uíí, uííí… A bordo desse périplo, vultos
imortais viajam, em elos de amizade terreal --
Borges, Bandeira, Paz, Drummond, Cortázar, Gabito,
e outros íncolas da eternidade.

Tu não és ficção, nem metáfora lorquiana (que se
sangra entre touradas, pelas cáveas da lua).

És Pã, zagal dos vocábulos.
A palavra é o teu bordão. Ó alvenel de frases,
que engendras livros aos sopros da grei
Camoniana dos Garret , dos Junqueira, dos
Queiroz, dos Pessoa, dos Andrade e dos Quental.

Enfezado, tufão, cospes
Suavidades impressionistas. (…)

(…) Ah, Portugal, ufanas-te deste luso-coimbrão-letrado
Que arranca o sol das estalactites da alma. (…).

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A POESIA DE GABRIEL NASCENTE EM PORTUGAL (ensaios críticos), de Joaquim de Montezuma de Carvalho. Goiânia, Editora Kelps, 112
págs., 2008.

VIAGEM ÀS CRIPTAS DE DANTE (poema), de Gabriel Nascente. Goiânia: Editora Kelps, 56 págs., 2007.
E-mail: kelps@kelps.com.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003).
E-mail: adelto@unisanta.br
 

Camilo Pessanha: os mitos destruídos ---->
POESIA
Adelto Gonçalves (*)
I

Que as histórias de vida de nossos grandes poetas sempre andaram mal contadas, ninguém duvida. Que muitos foram vítimas de historiadores literários apressados, que preencheram com a imaginação as lacunas que a falta de documentos deixava, também já se sabia. Agora, que outros foram alvo de picuínhas ou vinganças tardias de que já não puderam se defender só o tempo, senhor da razão, vai deixando perceber.

É caso de Camilo Pessanha (1867-1926), um dos maiores representantes do Simbolismo português, de quem Paulo Franchetti, professor titular de Teoria Literária da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), acaba de lançar um esboço biográfico (vida e obra) pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, de Lisboa: O essencial sobre Camilo Pessanha, dentro de uma coleção que vem recolhendo o fulcro do pensamento de várias personalidades intelectuais da vida portuguesa.

De Camilo Pessanha, antes de prosseguir, é preciso lembrar que, nascido em Coimbra, filho de um estudante de Direito e de sua governanta, embora registrado como de pai incógnito, viveu com os progenitores nos Açores e, depois, no Lamego. Formado em Coimbra em 1891, foi aprovado em concurso para lecionar no recém-criado Liceu de Macau, para onde viajou em 1894, lá ficando até a morte. Desde então, em Portugal só esteve durante apenas quatro curtos períodos, valendo-se de licenças médicas.


II

Que muitas informações de que se tinha conhecimento não batiam com outras que andavam espalhadas por testemunhos dispersos, já se sabia. E, portanto, tudo isso causava desconfiança. Tanto que todo crítico consciencioso sempre procurava ressaltar esses dois ângulos antagônicos: de um lado, a personalidade abúlica que se atribuía ao poeta, alguém que, no exílio voluntário em Macau, precisava do estímulo do ópio para fugir de um meio medíocre; de outro, o homem realizado profissionalmente que, influente e reconhecido na fechada sociedade portuguesa da colônia, chegara a juiz e a membro de uma loja maçônica e que, a um ano de sua morte por tuberculose, fora nomeado reitor substituto do Liceu Português.

Convenhamos que alguém andasse pelas ruas de Macau com sua figura esquálida, de saúde frágil e longas barbas negras, como um molambento, certamente, não chegaria tão longe. Portanto, algo devia andar errado nos estudos biográficos que se conhecia.

Foi, portanto, para passar a limpo algumas dessas informações equivocadas que Franchetti colocou-se a campo. Autor de vários estudos sobre a obra do poeta, como “Camilo Pessanha e a China” (In: Estudos Portugueses e Africanos, nº 11, Campinas, IEL/Unicamp, 1989), “Camilo Pessanha -- algumas considerações em contributo à sua biografia” (In: Estudos Portugueses e Africanos, nº 21, Campinas, IEL/Unicamp, 1993), “Camilo Pessanha e o Liceu de Macau” (In: Voz Lusíada, nº 5, São Paulo, Academia Lusíada de Ciências, Letras e Artes, 1995) e Nostalgia, Exílio e Melancolia -- Leituras de Camilo Pessanha (São Paulo, Edusp, 2001), o crítico atirou-se a uma tarefa nada fácil.

Afinal, ao contrário do poeta Wenceslau de Moraes (1854-1929), que viveu a maior parte de sua vida no Oriente, mais especificamente no Japão, prolífico escritor de cartas, Pessanha não teria sido muito amante da epistolografia, arte que, como se sabe, foi, nos últimos tempos, praticamente, condenada à morte pela revolução digital. Mas se foi um grande epistológrafo, é bem possível que as cartas que escreveu ao longo da vida tenham-se perdido para sempre.

Portanto, aqueles que se dedicaram a levantar traços biográficos de Pessanha acabaram limitados a testemunhos não só confusos e fantasiosos como pouco confiáveis, em razão das muitas inimizades que o poeta disseminou por Macau, até mesmo por força das funções que exerceu como juiz e advogado. Aliado a isso, é de lembrar que a aura de poeta amargurado, que preferira as agruras do desterro voluntário ao Portugal acanhado de seu tempo, era tudo o que o esfumaçado ambiente de décadence do seu tempo valorizava.


III


Um desses mitos contra os quais Franchetti investe é o de que não teria sido um bom conhecedor da língua e da cultura chinesas. Aliás, pode-se até aceitar que Pessanha tenha tido a colaboração do sinólogo José Vicente Jorge ou outro letrado chinês para traduzir/recriar as peças que compõem “As Oito Elegias Chinesas”, que publicou no semanário O Progresso, de Macau, nas edições de 13 e 20 de setembro e 4 e 18 de outubro de 1914. Mas a questão, como argumenta Franchetti, é que aqueles que fizeram tal tipo de avaliação também nunca deram nenhuma prova de que sabiam o que estavam a avaliar. A partir daqui, o autor desfila uma série de argumentos que mostram que a biografia de Pessanha tem sido tecida por uma longa lista de fantasias insustentáveis.

Um desses críticos nada rigorosos, acusa Franchetti, é Francisco de Carvalho e Rego, que, sob o pseudônimo Francisco Penajóia, escreveu uma pretensa biografia do poeta, publicada na revista Renascimento, de Macau, v.4, nº 4, em 1944. Outro é Guilherme de Castilho, que escreveu “Apontamentos dum caderno de viagem -- Camilo Pessanha em Macau”, artigo publicado n´O Comércio do Porto, de 13/4/1954, e “Dois elementos para a ‘pequena história’ de Camilo Pessanha”, que saiu n´O Primeiro de Janeiro, do Porto, de 15/8/1962, textos, aliás, que serviram de base para a parte biográfica do livro Camilo Pessanha, de João Gaspar Simões (Lisboa, Arcádia, 1967).

Além de chamar Pessanha de medroso, mostrando-o como homem displicente com seus trajes, desprovido de pontualidade e senso de obrigação, Penajóia não só colocou em dúvida a sua capacidade oratória como jurista como lhe atribuiu uma personalidade abjeta a quem, ao morrer, “quase abandonado, coberto de chagas”, poucos amigos teriam acompanhado em seu enterro. Nada disso, porém, é confirmado por outros testemunhos.

Pelo contrário. Franchetti lembra o testemunho do sinólogo José Vicente Jorge, preservado por Danilo Barreiros, seu genro, segundo o qual “o poeta tinha profundo conhecimento teórico da língua chinesa e um apreciável manejo da língua falada”. Argumenta ainda que basta olhar fotos de Camilo Pessanha, num rigoroso figurino de época, para certificar-se de que, pelo menos até 1915, a sua figura externa estava muito mais próxima do dândi “do que do mendigo sujo que alguma tradição tentou fixar”.

Quanto à abulia que se costuma atribuir a Pessanha, o biógrafo admite que o poeta podia alternar momentos de grande atividade e energia com outros de fraqueza e prostração. “Mas não há por que tomar por mais legítimo e definir a personalidade do poeta apenas por um desses momentos”, diz.


IV


Outro mito contra o qual investe é o de que o autor seria um poeta sem escrita, fantasia que começou a ganhar corpo a partir de uma entrevista que a escritora Ana de Castro Osório deu ao Diário de Lisboa, de 21/4/1921, pouco meses depois que sua casa editora, a Edições Lusitânia, havia publicado Clepsidra, único livro de versos de Camilo Pessanha. Nessa entrevista, depois de chamar o poeta de tímido e misantropo, afirmou que ele não escrevia seus versos, guardando-os de memória. A fim de que não se perdessem, disse, resolveu pedir-lhe que ditasse algumas de suas poesias para que as anotasse.

Segundo Franchetti, João de Castro Osório, filho de Ana de Castro Osório, assumindo-se como herdeiro do espólio literário de autor, também procurou mostrar-se como “salvador” da obra, mas o que os documentos mostram é que sua participação foi modesta: um poema anotado a partir do ditado de Pessanha, corrigido depois pelo poeta. Teria também, ao longo dos anos, trabalhado na fixação do texto e da ordem dos poemas no livro.

Mas, diz Franchetti, deixou muito a desejar quanto ao rigor e confiabilidade dos registros de variantes. Felizmente, restaram um caderno de Camilo Pessanha, que foi depositado no Arquivo Histórico de Macau, e a documentação que consta do acervo da Biblioteca Nacional de Lisboa. É com base nessa documentação que tanto Franchetti quanto Daniel Pires, responsável pelo prefácio e fixação do texto de Clepsidra e outros poemas (Lisboa, Livros Horizonte, 2006), tem desenvolvido seus últimos trabalhos sobre o poeta.

No caderno de Macau, o poeta colou vários recortes de publicações de poemas seus, corrigindo-os. A reprodução em 1984 das páginas desse caderno, observa Franchetti, serviu para colocar um ponto final na imagem pouco crível, mas persistente e amplamente divulgada, de Pessanha como um poeta sem escrita. Mesmo assim, por força da repetição, a imagem continuou a vigorar por mais tempo.

Seja como for, a verdade é que ainda falta um trabalho mais profundo de reconstrução da biografia de Camilo Pessanha, que tanto Franchetti como Pires reúnem todas as condições de levar a efeito. Como diz o próprio título da coleção da IN-CM, este livro procurou trazer à luz apenas o “essencial” sobre a vida e a obra de Camilo Pessanha, tratando de destruir de vez alguns mitos e equívocos que ainda podem levar historiadores literários ou investigadores acadêmicos menos atentos a repetições indevidas. Com certeza, todas essas fantasias levantadas a respeito de um poeta mitificado pela distância pertencem a uma maneira romântica de conceber a vida dos escritores, que hoje já perdeu o sentido.


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O ESSENCIAL SOBRE CAMILO PESSANHA, de Paulo Franchetti. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda,112 págs., 5 euros, 2008. Site: incm.pt
E-mail: eubookshop@incm.pt
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
 

Cinco séculos de poesia brasileira ---->
LETRAS
Adelto Gonçalves (*)
I

Os professores de Literatura Brasileira tanto do ensino médio como do ensino universitário já não precisam se preocupar tanto para elaborar seus planos de ensino nem consultar uma grande quantidade de livros nem sempre disponíveis nas bibliotecas de escolas ou mesmo de universidades públicas ou privadas. Foi pensando nisso que a Companhia Editora Nacional e a Lazuli Editora decidiram editar uma série de cinco livros sobre a poesia brasileira desde a formação do País até o começo do século XX, entregando a tarefa a uma equipe de jovens críticos e professores já com experiência em sala de aula, todos ligados à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O resultado é uma edição que merece toda a confiança do leitor e que permite “pensar a história da poesia no Brasil e suas principais linhas de força, ao longo de cinco séculos”, como assinala na apresentação do primeiro dos cinco volumes Paulo Franchetti, professor titular de Teoria Literária na Unicamp, responsável também pela apresentação dos demais livros.

O primeiro volume da série, Antologia da poesia barroca brasileira, traz poemas de Gregório de Matos (1636-1696), Bento Teixeira (c.1561-1600), Manuel Botelho de Oliveira (1636-1711) e Sebastião da Rocha Pita (1660-1738), selecionados por Emerson Tin, doutorando em Literatura Brasileira pela Unicamp, responsável também pelo prefácio, por notas explicativas e de natureza literária, contextual e lexical e por uma pequena notícia biográfica de cada autor que ajudam a tornar cada poema mais legível ao leitor pouco versado na produção barroca luso-brasileira.

Não é preciso dizer que na produção poética do período a primazia é de Gregório de Matos, o que levou o organizador da antologia a selecionar 40 de seus poemas. Seu contemporâneo Botelho de Oliveira aparece com 20 poemas, enquanto Rocha Pita, consagrado autor da História da América portuguesa, tem resgatada a sua um tanto esquecida produção na Academia Brasílica dos Esquecidos. Quem, porém, abre a antologia é Bento Teixeira, conhecido especialmente pelo poema épico “Prosopopéia”, que tem como modelo “Os Lusíadas”, de Luís de Camões (1524?-1580).

II

Com seleção e notas de Pablo Simpson, o segundo volume da série, Antologia da poesia árcade brasileira, dedica os maiores espaços, como não poderia deixar de ser, a Cláudio Manuel da Costa (1729-1789) e Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), mas também contempla parte da produção de Santa Rita Durão (1822?-1784), Domingos Caldas Barbosa (1738-1800), Basílio da Gama (1741-1795), Alvarenga Peixoto (1744-1793) e Silva Alvarenga (1749-1814).

Reúne o que de melhor produziu a poesia árcade e, de certo modo, ajuda-a a recuperar um lugar que nem sempre lhe foi reconhecido pela crítica, especialmente a da primeira metade do século XX, que viu com prevenção a estilização e o apego de seus poetas a cânones não só portugueses como italianos, esquecendo-se de que, à época, o Brasil não existia como nação organizada e, na verdade, éramos todos portugueses.

Como assinala Paulo Franchetti na apresentação, o Arcadismo, embora não tenha recebido a fortuna crítica e a recepção entusiasmada com que o Barroco tem sido contemplado nos últimos anos, já pode ser visto de modo mais favorável. Além disso, o próprio movimento de constituição de agremiações intelectuais, as famosas academias, diz o professor, “parece mais simpático, quando se considera que o uso dos pseudônimos e a valorização do talento como único requisito para admissão dos membros encenavam, na sociedade estratificada do século XVIII, o ideal de uma aristocracia de espírito e não de sangue”.

Para isso, muito contribuíram os recentes estudos de Jorge Ruedas de la Serna, Vania Pinheiro Chaves, Ivan Teixeira, Alcir Pécora, Melânia Silva de Aguiar, Sérgio Alcides, Ronald Polito, Joaci Pereira Furtado, José Ramos Tinhorão, Luís André Nepomuceno e, se permitem a pouca modéstia, a biografia de Tomás Antônio Gonzaga que este articulista escreveu.

III

Já Antologia da poesia romântica brasileira, com seleção e notas de Pablo Simpson, Pedro Marques e Cristiane Escolastico Siniscalchi, é um volume mais encorpado, em razão mesmo da necessidade de abranger maior número de autores. O período, a rigor, vai de 1836, quando o poeta Gonçalves de Magalhães (1811-1882) publicou um ensaio na revista Niterói, editada em Paris, lançando as idéias de um programa para a edificação de uma literatura genuinamente brasileira, sob a influência da natureza americana, até meados da segunda metade do século XIX. E configura a presença do Romantismo em terras brasileiras.

Além do citado Gonçalves de Magalhães, o volume abrange autores díspares como Sousândrade (1832-1902), autor de “O Guesa Errante“, poema redescoberto pelos concretistas Augusto e Haroldo de Campos (1929-2003) a partir da década de 60 do século passado, e Gonçalves Dias (1823-1864), autor da antológica “Canção do exílio” e de alguns dos mais importantes poemas da lírica indianista brasileira.

Reúne ainda Luís Gama (1830-1882), com suas sátiras aos comportamentos, tipos e situações de sua época, Bernardo Guimarães (1825-1884), com sua poesia erótica e, às vezes, até pornográfica, Álvares de Azevedo (1831-1952), com sua fina e sepulcral poesia, Laurindo Rabelo (1826-1864), com sua poesia satírica e fescenina, Casimiro de Abreu (1839-1860), com sua lírica de tons suaves, Castro Alves (1847-1871), com seus versos grandiloqüentes em favor dos escravos, Fagundes Varela (1841-1875), com seus poemas religiosos uns, amorosos outros, de inspiração regional ou sertaneja, Juvenal Galeno (1836-1931), com seus versos francamente populares, e Junqueira Freire (1832-1855), com seus poemas de monge atormentado.

IV

Com seleção e notas de Pedro Marques, Antologia da poesia parnasiana brasileira apresenta poemas de 14 poetas, entre consagrados e outros menos conhecidos do grande público, mas não menos representativos do parnasianismo. Entre os consagrados, estão Olavo Bilac (1865-1918) e Machado de Assis (1839-1908), cuja produção como poeta acabou abafada pelo êxito de seus romances da última fase. Entre os menos afamados, estão Luís Delfino (1834-1910), B.Lopes (1859-1916) e Francisca Júlia (1870-1920), única mulher entre os poetas reunidos.

Lembra Franchetti na apresentação que o parnasianismo, em seu grande momento, ocupou lugar proeminente em jornais, revistas, conferências públicas e saraus burgueses, atraindo grande público para a poesia, o que, aliás, nunca haveria de se repetir, guardadas as devidas proporções no tempo. É de ressaltar ainda que, desde os primeiros tempos do Brasil independente, a literatura esteve comprometida com as questões vitais da nação, tendo assumido a bandeira da causa abolicionista.

Encerrada a questão da abolição da escravatura -- embora a situação dos ex-escravos nunca tenha efetivamente preocupado o governo e as classes dirigentes --, e estabelecida a República, desapareceram os grandes temas épicos. Assim, a poesia refluiu a um exclusivo cultivo artístico, calcado em movimentos europeus posteriores ao Romantismo.

Embora fique clara a influência do movimento francês, os parnasianos brasileiros procuraram um caminho próprio, o que explica o fato de terem caído no gosto da população ou pelo menos daquele público letrado que se interessava pelas coisas do espírito. Com certeza, tal foi a importância do lugar que essa geração ocupou na sociedade de seu tempo que a ela se deve a criação da Academia Brasileira de Letras, como lembra Pedro Marques na sua introdução.

Se muitas vezes os modernistas atacaram sem medidas o parnasianismo, isso se deu por conta da necessidade que tinham de oferecer alternativas para o que consideravam fórmulas gastas dos parnasianos. Mas nunca deixaram de reconhecer a importância histórica do movimento.

V

Com seleção e notas da professora Francine Ricieri, doutora em Teoria e História Literária na área de Literatura Brasileira pela Unicamp, Antologia da poesia simbolista e decadente brasileira reúne nove poetas de um movimento que, ao não alcançar a repercussão do parnasianismo, agrupa nomes ainda pouco conhecidos do público. Diz a organizadora em aprofundado estudo introdutório à guisa de prefácio que esses poetas, como jamais pretenderam servir à causa nacional, “foram usualmente representados como alienados, desenraizados, fúteis, irracionalistas, incompreensíveis, colonizados”.

Seja como for, como observa Franchetti na apresentação, a poesia simbolista reserva muitas surpresas “e a leitura desta antologia por certo ajudará a reverter a idéia de desinteresse que se colou à produção simbolista”. Para que esta frase não fique aqui assim um tanto solta, é de lembrar que Franchetti, autor de As aves que aqui gorjeiam -- a poesia do Romantismo ao Simbolismo (Lisboa, Cotovia, 2005), navega por estas águas com mão de mestre, como diria Massaud Moisés.

Missal e Broquéis, publicados no Rio de Janeiro em 1893, por Cruz e Sousa (1861-1898), teriam sido a primeira manifestação em livro no Brasil do Simbolismo ou Decadentismo. Por isso, além de peças de Cruz e Sousa, que abrem o volume, a organizadora recolheu poemas de Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), B.Lopes (1859-1916), Eduardo Guimaraens (1892-1928), Maranhão Sobrinho (1879-1915), Pedro Kilkerry (1885-1917), Da Costa e Silva (1885-1950), Emiliano Perneta (1866-1921) e Alceu Wamosy (1895-1923). É de notar que B.Lopes aparece aqui também porque sua poesia tanto tem traços parnasianos como simbolistas.

Desses, o mais visível nos dias de hoje é Da Costa e Silva, em razão do trabalho de resgate de sua poesia encetado por seu filho, o poeta Alberto da Costa e Silva, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, que tratou de republicar a produção do pai, embora Alphonsus de Guimaraens e Emiliano Perneta também sejam frequëntemente lembrados em estudos acadêmicos.

Outro bem conhecido seria Augusto dos Anjos (1884-1914), cuja poesia apresenta recursos e temas relacionados à poesia simbolista, mas a organizadora preferiu deixá-lo de fora da antologia, argumentando que incluí-lo seria fornecer do poeta “uma visão que não condiz com a linha peculiar e tão característica em que sua poesia se definiu”. Até porque a produção de Augusto dos Anjos guarda igualmente traços parnasianos e até mesmo pré-modernistas.

Por isso, seria aceitável que alguns especialistas viessem a questionar a sua exclusão, mas a verdade é que o estudo introdutório de Francine Ricieri é tão bem embasado e didático e suas extensas notas de leitura tão esclarecedoras que essa se torna uma tarefa extremamente difícil e ingrata.
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ANTOLOGIA DA POESIA BARROCA BRASILEIRA, 157 págs., 2007, R$ 18; ANTOLOGIA DA POESIA ÁRCADE BRASILEIRA, 126 págs., 2007, R$ 18; ANTOLOGIA DA POESIA ROMÂNTICA BRASILEIRA, 286 págs., 2007, R$ 22; ANTOLOGIA DA POESIA PARNASIANA BRASILEIRA, 227 págs., 2007, R$ 22; ANTOLOGIA DA POESIA SIMBOLISTA E DECADENTE BRASILEIRA, 223 págs., 2008, R$ 22. Apresentação de Paulo Franchetti. São Paulo: Companhia Editora Nacional/Lazuli Editora. Site: www.editoranacional.com.br
E-mail: editoras@ibep-nacional.com.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
 
 
 
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