Adelto Gonçalves
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Montezuma, o lampadário de Lisboa ---->
LETRAS

Adelto Gonçalves (*)

I

Com exceção do suplemento Das Artes, Das Letras do jornal O Primeiro de Janeiro, do Porto, que vem publicando todas as semanas seus artigos póstumos, partiu do Brasil -- mais especificamente de Goiânia, no cerrado do Centro-Oeste -- a primeira homenagem à memória de Joaquim de Montezuma de Carvalho (1928-2008), falecido a 6 de março. E veio em forma de poema, “Joaquim de Montezuma de Carvalho, o lampadário de Lisboa”, de autoria de Gabriel Nascente (1950), que faz parte do livro A poesia de Gabriel Nascente em Portugal, que reúne ainda dois textos do pensador português e um deste articulista sobre a arte do poeta goiano, todos publicados no Primeiro de Janeiro, além de parte da correspondência trocada entre ambos nos últimos anos.

Embora não tenha conhecido pessoalmente Montezuma de Carvalho, Nascente solidificou sua amizade com o escritor português a partir de uma correspondência epistolográfica assídua nos últimos tempos. Avesso à correspondência digital pela Internet, assim como Nascente, Montezuma, como fazia com a maioria de seus amigos, engordava suas cartas com fotocópias de textos e ilustrações que, geralmente, “descobria” em suas pesquisas no Arquivo Histórico Militar, de Lisboa, em frente à Estação de Santa Apolônia, que fica a escassos 200 metros da Rua dos Remédios, na Alfama, onde morava.

Em junho de 2007, foi com grande entusiasmo que Montezuma recebeu o livro Viagem às criptas de Dante, que traz um longo poema de Nascente, além de apresentar na contracapa um trecho do artigo com que o crítico recebeu o livro anterior do poeta, a antologia Inventário Poético (Goiânia, Editora Alternativa, 2005). “A chispa de Dante tocou este poeta do interior do Brasil”, diz Montezuma logo nas primeiras linhas da recensão que fez ao livro, considerando-o “um poemário de grande poder sugestivo e fruto de um talento recriador”.

O que também chamou a atenção de Montezuma, além da beleza dos versos, foi a referência no Canto Segundo ao lago Bulicame:

(…) É certo, eu me ia; e, me indo,
naquele lago -- o Bulicame, fumegante --
após o Cocito, gelado, um susto tive,
ao ouvir de Farinata, tão agros vaticínios,
de minha volta à luz dos páramos. (...).

Lembrando-se logo de Boliqueime, a terra algarvia do atual presidente da República portuguesa, o professor doutor Aníbal Cavaco Silva, Montezuma deslocou-se ao sempre à mão Arquivo Histórico Militar. Haveria alguma relação entre o Bulicame de Dante e o Boliqueime (ou Boliquême, que assim também se escreveu por algum tempo)? Encontrou uma pista no Dicionário Corográfico de Portugal Continental e Insular, de Américo Costa, v.3, de 1932, ligando bulicame a “olhos d´água”.

Depois, num dicionário da lingua italiana, constatou que bulicàre significa o bulir da água. Logo, concluiu que, se os genoveses, sicilianos e venezianos nos séculos XIII, XIV e XV andavam em contínua faina de pesca de atum e baleia nas costas do Algarve, principalmente em Lagos, Boliqueime foi nome dado pelos italianos à aldeia portuguesa.

Depois, constatou que Nascente buscou inspiração no Canto Décimo Quarto da Divina Comédia, que constitui o sétimo círculo do “Inferno”, onde habitam os homens violentos:

(…) Qual do Bulicame sai um regato cuja água
as meretrizes dividem entre si, tal aquele rio
descia através da areia do terceiro girão. (…).

II

De livro em livro, constatou que Boliqueime e Bulicame são a mesma coisa. E intuiu o que ninguém, ao que se saiba, antes assinalara: a origem italiana (antes da existência da Itália como nação organizada) do povoado algarvio. Foi o que escreveu no ensaio “O Buliqueime de Dante e o de Aníbal Cavaco Silva… e a sombra de Maquiavel”, publicado no suplemento Das Artes, Das Letras d´O Primeiro de Janeiro, de 25/6/2007, a uma época em que Montezuma já se encontrava mal de saúde, com saídas constantes de casa para fazer exames médicos ou ir ao hospital, como me confidenciou por telefone a 25/7/2007, uma quarta-feira, data de nossa última conversa.

O poemário, porém, tanto o entusiasmara que voltaria ao assunto, com o ensaio “Viagem às Criptas de Dante com Gabriel Nascente, Teixeira de Pascoaes, Murilo Mendes, Ludovico Silva, Fidel Castro, Frei Betto…”, publicado a 10/9/2007, no qual diz que se trata de “um poema a causar calafrios”. Afirma: “Vejo-o como uma condensação superior da Divina Comédia de Dante (1265-1321), o vasto poema sacro a descrever Inferno, Purgatório e Paraíso, os três territórios dogmáticos da religião católica e não só (a pulsar também com os evangelistas das religiões reformadas após Lutero e outros, com os muçulmanos e alguns mais geógrafos do nosso além-morte)”.

E acrescenta: “Ele substantivou o seu denso e agônico poema com a receita proposta por Dante, não a de usarem quaisquer palavras mas só aquelas com o poder musical de reproduzirem as imagens malignas ou benignas do outro-mundo. Gabriel Nascente, decerto sem o saber mas com o talento inato do artista de o saber, seguiu os passos de Dante no Canto XXXII do Inferno, a indicarem a necessidade de se encontrarem rimas ásperas e roncas como símile das realidades”.

Transcreve-se aqui estes rasgados elogios não só para dar a dimensão da importância do trabalho poético de Gabriel Nascente -- nem sempre reconhecido no eixo intelectual de Rio de Janeiro e São Paulo -- como para oferecer ao leitor, que não teve ainda a oportunidade de conhecer um pouco da obra de Montezuma, uma amostra de seu estilo barroco, que muito faz lembrar o do padre Antônio Vieira (1608-1697), na mesma explosão de idéias e imagens que só mesmo aqueles autores extremamente eruditos são capazes de produzir.

III

Montezuma de Carvalho nasceu na freguesia de Almedina, em Coimbra, em cuja Faculdade Direito se licenciou. Filho do filósofo Joaquim de Carvalho (1892-1958), com o diploma debaixo do braço, mudou-se para Angola e Moçambique onde exerceu funções nos registros e na magistratura (Nova Lisboa, Inhambane e Lourenço Marques) até 1976, quando retornou a Portugal para exercer a advocacia em Lisboa.

Em 1951, ainda estudante, tomou a iniciativa de homenagear o poeta Teixeira de Pascoaes (1877-1952), publicando o livro coletivo A Teixeira de Pascoaes, a exemplo do que fez recentemente em relação a Eugénio de Andrade (1923-2005), com textos de autores que convidou para a tarefa. Os textos também foram publicados no suplemento Das Artes, Das Letras do jornal O Primeiro de Janeiro e, depois, transformados no livro A Jeito de Homenagem a Eugénio de Andrade (Porto, Fólio Edições, 2004).

Em 1957, lançou em Angola Epistolário Ibérico: Cartas de Pascoaes e Unamuno. Em 1958, organizou os livros Joaquim de Carvalho no Brasil e Miscelânea de Estudos a Joaquim de Carvalho. Fundou, ainda, na Figueira da Foz, a Biblioteca-Museu Joaquim de Carvalho e a Sala Joaquim de Carvalho, esta última ligada à Biblioteca Municipal.

De 1958 a 1965, financiado pelo município de Nova Lisboa, Angola, organizou e publicou os quatro tomos do Panorama das Literaturas das Américas, de 1900 à Actualidade, obra até hoje sem equivalente na sua dimensão global e na qualidade de seus colaboradores diretos. Em 1965, apresentou os escritores luso-brasileiros nascidos no século XX na obra francesa Ecrivains Contemporaine (Paris, Ed. Mazenod). Em 1963, fez parte do júri internacional que atribuiu ao mexicano Octavio Paz o Grande Prix de Poésie, prêmio belga.

No Brasil, colaborou especialmente nos diários O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde e A Tribuna, de Santos. Colaborou ainda em numerosas revistas do Brasil e da Argentina. Sua última colaboração saiu na Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, nº 53, out.-dez.2007, pp.169-179, o artigo “Os três sepulcros de Viriato e a sua ressurreição”, que, provavelmente, não chegou a ver, já que só nos últimos dias a instituição distribuiu para seus colaboradores os seus três últimos números.

Publicou e organizou numerosos livros, entre os quais Sor Juana Inês de la Cruz e o Padre Antônio Vieira (1998) e Cervantes em Portugal (2005). Em 2004, a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra deu à estampa Drummond e os portugueses -- Drummon (D) Tezuma: correspondências entre Carlos Drummond de Andrade e Joaquim de Montezuma de Carvalho, organizado por Maria Aparecida Ribeiro e Eliane Vasconcelos.

IV

Diante dos elogios de Montezuma a Gabriel Nascente, está claro que nada mais é necessário acrescentar aos dois livros aqui resenhados. Por isso, melhor aproveitar o espaço com a reprodução de um trecho do poema de nove cantos “Joaquim de Montezuma de Carvalho, o lampadário de Lisboa” que Nascente fez em homenagem póstuma ao pensador português:


(…)Ó grande Montezuma de Carvalho, o maquinista
das grandes expressões neo-revolucionárias -- a guiares
o trem de textos pelas vagas do louco tempo:
uí, uíí, uííí… A bordo desse périplo, vultos
imortais viajam, em elos de amizade terreal --
Borges, Bandeira, Paz, Drummond, Cortázar, Gabito,
e outros íncolas da eternidade.

Tu não és ficção, nem metáfora lorquiana (que se
sangra entre touradas, pelas cáveas da lua).

És Pã, zagal dos vocábulos.
A palavra é o teu bordão. Ó alvenel de frases,
que engendras livros aos sopros da grei
Camoniana dos Garret , dos Junqueira, dos
Queiroz, dos Pessoa, dos Andrade e dos Quental.

Enfezado, tufão, cospes
Suavidades impressionistas. (…)

(…) Ah, Portugal, ufanas-te deste luso-coimbrão-letrado
Que arranca o sol das estalactites da alma. (…).

_______________________

A POESIA DE GABRIEL NASCENTE EM PORTUGAL (ensaios críticos), de Joaquim de Montezuma de Carvalho. Goiânia, Editora Kelps, 112
págs., 2008.

VIAGEM ÀS CRIPTAS DE DANTE (poema), de Gabriel Nascente. Goiânia: Editora Kelps, 56 págs., 2007.
E-mail: kelps@kelps.com.br
________________________

(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003).
E-mail: adelto@unisanta.br
 

Camilo Pessanha: os mitos destruídos ---->
POESIA
Adelto Gonçalves (*)
I

Que as histórias de vida de nossos grandes poetas sempre andaram mal contadas, ninguém duvida. Que muitos foram vítimas de historiadores literários apressados, que preencheram com a imaginação as lacunas que a falta de documentos deixava, também já se sabia. Agora, que outros foram alvo de picuínhas ou vinganças tardias de que já não puderam se defender só o tempo, senhor da razão, vai deixando perceber.

É caso de Camilo Pessanha (1867-1926), um dos maiores representantes do Simbolismo português, de quem Paulo Franchetti, professor titular de Teoria Literária da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), acaba de lançar um esboço biográfico (vida e obra) pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, de Lisboa: O essencial sobre Camilo Pessanha, dentro de uma coleção que vem recolhendo o fulcro do pensamento de várias personalidades intelectuais da vida portuguesa.

De Camilo Pessanha, antes de prosseguir, é preciso lembrar que, nascido em Coimbra, filho de um estudante de Direito e de sua governanta, embora registrado como de pai incógnito, viveu com os progenitores nos Açores e, depois, no Lamego. Formado em Coimbra em 1891, foi aprovado em concurso para lecionar no recém-criado Liceu de Macau, para onde viajou em 1894, lá ficando até a morte. Desde então, em Portugal só esteve durante apenas quatro curtos períodos, valendo-se de licenças médicas.


II

Que muitas informações de que se tinha conhecimento não batiam com outras que andavam espalhadas por testemunhos dispersos, já se sabia. E, portanto, tudo isso causava desconfiança. Tanto que todo crítico consciencioso sempre procurava ressaltar esses dois ângulos antagônicos: de um lado, a personalidade abúlica que se atribuía ao poeta, alguém que, no exílio voluntário em Macau, precisava do estímulo do ópio para fugir de um meio medíocre; de outro, o homem realizado profissionalmente que, influente e reconhecido na fechada sociedade portuguesa da colônia, chegara a juiz e a membro de uma loja maçônica e que, a um ano de sua morte por tuberculose, fora nomeado reitor substituto do Liceu Português.

Convenhamos que alguém andasse pelas ruas de Macau com sua figura esquálida, de saúde frágil e longas barbas negras, como um molambento, certamente, não chegaria tão longe. Portanto, algo devia andar errado nos estudos biográficos que se conhecia.

Foi, portanto, para passar a limpo algumas dessas informações equivocadas que Franchetti colocou-se a campo. Autor de vários estudos sobre a obra do poeta, como “Camilo Pessanha e a China” (In: Estudos Portugueses e Africanos, nº 11, Campinas, IEL/Unicamp, 1989), “Camilo Pessanha -- algumas considerações em contributo à sua biografia” (In: Estudos Portugueses e Africanos, nº 21, Campinas, IEL/Unicamp, 1993), “Camilo Pessanha e o Liceu de Macau” (In: Voz Lusíada, nº 5, São Paulo, Academia Lusíada de Ciências, Letras e Artes, 1995) e Nostalgia, Exílio e Melancolia -- Leituras de Camilo Pessanha (São Paulo, Edusp, 2001), o crítico atirou-se a uma tarefa nada fácil.

Afinal, ao contrário do poeta Wenceslau de Moraes (1854-1929), que viveu a maior parte de sua vida no Oriente, mais especificamente no Japão, prolífico escritor de cartas, Pessanha não teria sido muito amante da epistolografia, arte que, como se sabe, foi, nos últimos tempos, praticamente, condenada à morte pela revolução digital. Mas se foi um grande epistológrafo, é bem possível que as cartas que escreveu ao longo da vida tenham-se perdido para sempre.

Portanto, aqueles que se dedicaram a levantar traços biográficos de Pessanha acabaram limitados a testemunhos não só confusos e fantasiosos como pouco confiáveis, em razão das muitas inimizades que o poeta disseminou por Macau, até mesmo por força das funções que exerceu como juiz e advogado. Aliado a isso, é de lembrar que a aura de poeta amargurado, que preferira as agruras do desterro voluntário ao Portugal acanhado de seu tempo, era tudo o que o esfumaçado ambiente de décadence do seu tempo valorizava.


III


Um desses mitos contra os quais Franchetti investe é o de que não teria sido um bom conhecedor da língua e da cultura chinesas. Aliás, pode-se até aceitar que Pessanha tenha tido a colaboração do sinólogo José Vicente Jorge ou outro letrado chinês para traduzir/recriar as peças que compõem “As Oito Elegias Chinesas”, que publicou no semanário O Progresso, de Macau, nas edições de 13 e 20 de setembro e 4 e 18 de outubro de 1914. Mas a questão, como argumenta Franchetti, é que aqueles que fizeram tal tipo de avaliação também nunca deram nenhuma prova de que sabiam o que estavam a avaliar. A partir daqui, o autor desfila uma série de argumentos que mostram que a biografia de Pessanha tem sido tecida por uma longa lista de fantasias insustentáveis.

Um desses críticos nada rigorosos, acusa Franchetti, é Francisco de Carvalho e Rego, que, sob o pseudônimo Francisco Penajóia, escreveu uma pretensa biografia do poeta, publicada na revista Renascimento, de Macau, v.4, nº 4, em 1944. Outro é Guilherme de Castilho, que escreveu “Apontamentos dum caderno de viagem -- Camilo Pessanha em Macau”, artigo publicado n´O Comércio do Porto, de 13/4/1954, e “Dois elementos para a ‘pequena história’ de Camilo Pessanha”, que saiu n´O Primeiro de Janeiro, do Porto, de 15/8/1962, textos, aliás, que serviram de base para a parte biográfica do livro Camilo Pessanha, de João Gaspar Simões (Lisboa, Arcádia, 1967).

Além de chamar Pessanha de medroso, mostrando-o como homem displicente com seus trajes, desprovido de pontualidade e senso de obrigação, Penajóia não só colocou em dúvida a sua capacidade oratória como jurista como lhe atribuiu uma personalidade abjeta a quem, ao morrer, “quase abandonado, coberto de chagas”, poucos amigos teriam acompanhado em seu enterro. Nada disso, porém, é confirmado por outros testemunhos.

Pelo contrário. Franchetti lembra o testemunho do sinólogo José Vicente Jorge, preservado por Danilo Barreiros, seu genro, segundo o qual “o poeta tinha profundo conhecimento teórico da língua chinesa e um apreciável manejo da língua falada”. Argumenta ainda que basta olhar fotos de Camilo Pessanha, num rigoroso figurino de época, para certificar-se de que, pelo menos até 1915, a sua figura externa estava muito mais próxima do dândi “do que do mendigo sujo que alguma tradição tentou fixar”.

Quanto à abulia que se costuma atribuir a Pessanha, o biógrafo admite que o poeta podia alternar momentos de grande atividade e energia com outros de fraqueza e prostração. “Mas não há por que tomar por mais legítimo e definir a personalidade do poeta apenas por um desses momentos”, diz.


IV


Outro mito contra o qual investe é o de que o autor seria um poeta sem escrita, fantasia que começou a ganhar corpo a partir de uma entrevista que a escritora Ana de Castro Osório deu ao Diário de Lisboa, de 21/4/1921, pouco meses depois que sua casa editora, a Edições Lusitânia, havia publicado Clepsidra, único livro de versos de Camilo Pessanha. Nessa entrevista, depois de chamar o poeta de tímido e misantropo, afirmou que ele não escrevia seus versos, guardando-os de memória. A fim de que não se perdessem, disse, resolveu pedir-lhe que ditasse algumas de suas poesias para que as anotasse.

Segundo Franchetti, João de Castro Osório, filho de Ana de Castro Osório, assumindo-se como herdeiro do espólio literário de autor, também procurou mostrar-se como “salvador” da obra, mas o que os documentos mostram é que sua participação foi modesta: um poema anotado a partir do ditado de Pessanha, corrigido depois pelo poeta. Teria também, ao longo dos anos, trabalhado na fixação do texto e da ordem dos poemas no livro.

Mas, diz Franchetti, deixou muito a desejar quanto ao rigor e confiabilidade dos registros de variantes. Felizmente, restaram um caderno de Camilo Pessanha, que foi depositado no Arquivo Histórico de Macau, e a documentação que consta do acervo da Biblioteca Nacional de Lisboa. É com base nessa documentação que tanto Franchetti quanto Daniel Pires, responsável pelo prefácio e fixação do texto de Clepsidra e outros poemas (Lisboa, Livros Horizonte, 2006), tem desenvolvido seus últimos trabalhos sobre o poeta.

No caderno de Macau, o poeta colou vários recortes de publicações de poemas seus, corrigindo-os. A reprodução em 1984 das páginas desse caderno, observa Franchetti, serviu para colocar um ponto final na imagem pouco crível, mas persistente e amplamente divulgada, de Pessanha como um poeta sem escrita. Mesmo assim, por força da repetição, a imagem continuou a vigorar por mais tempo.

Seja como for, a verdade é que ainda falta um trabalho mais profundo de reconstrução da biografia de Camilo Pessanha, que tanto Franchetti como Pires reúnem todas as condições de levar a efeito. Como diz o próprio título da coleção da IN-CM, este livro procurou trazer à luz apenas o “essencial” sobre a vida e a obra de Camilo Pessanha, tratando de destruir de vez alguns mitos e equívocos que ainda podem levar historiadores literários ou investigadores acadêmicos menos atentos a repetições indevidas. Com certeza, todas essas fantasias levantadas a respeito de um poeta mitificado pela distância pertencem a uma maneira romântica de conceber a vida dos escritores, que hoje já perdeu o sentido.


_____________________

O ESSENCIAL SOBRE CAMILO PESSANHA, de Paulo Franchetti. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda,112 págs., 5 euros, 2008. Site: incm.pt
E-mail: eubookshop@incm.pt
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
 

Cinco séculos de poesia brasileira ---->
LETRAS
Adelto Gonçalves (*)
I

Os professores de Literatura Brasileira tanto do ensino médio como do ensino universitário já não precisam se preocupar tanto para elaborar seus planos de ensino nem consultar uma grande quantidade de livros nem sempre disponíveis nas bibliotecas de escolas ou mesmo de universidades públicas ou privadas. Foi pensando nisso que a Companhia Editora Nacional e a Lazuli Editora decidiram editar uma série de cinco livros sobre a poesia brasileira desde a formação do País até o começo do século XX, entregando a tarefa a uma equipe de jovens críticos e professores já com experiência em sala de aula, todos ligados à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O resultado é uma edição que merece toda a confiança do leitor e que permite “pensar a história da poesia no Brasil e suas principais linhas de força, ao longo de cinco séculos”, como assinala na apresentação do primeiro dos cinco volumes Paulo Franchetti, professor titular de Teoria Literária na Unicamp, responsável também pela apresentação dos demais livros.

O primeiro volume da série, Antologia da poesia barroca brasileira, traz poemas de Gregório de Matos (1636-1696), Bento Teixeira (c.1561-1600), Manuel Botelho de Oliveira (1636-1711) e Sebastião da Rocha Pita (1660-1738), selecionados por Emerson Tin, doutorando em Literatura Brasileira pela Unicamp, responsável também pelo prefácio, por notas explicativas e de natureza literária, contextual e lexical e por uma pequena notícia biográfica de cada autor que ajudam a tornar cada poema mais legível ao leitor pouco versado na produção barroca luso-brasileira.

Não é preciso dizer que na produção poética do período a primazia é de Gregório de Matos, o que levou o organizador da antologia a selecionar 40 de seus poemas. Seu contemporâneo Botelho de Oliveira aparece com 20 poemas, enquanto Rocha Pita, consagrado autor da História da América portuguesa, tem resgatada a sua um tanto esquecida produção na Academia Brasílica dos Esquecidos. Quem, porém, abre a antologia é Bento Teixeira, conhecido especialmente pelo poema épico “Prosopopéia”, que tem como modelo “Os Lusíadas”, de Luís de Camões (1524?-1580).

II

Com seleção e notas de Pablo Simpson, o segundo volume da série, Antologia da poesia árcade brasileira, dedica os maiores espaços, como não poderia deixar de ser, a Cláudio Manuel da Costa (1729-1789) e Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), mas também contempla parte da produção de Santa Rita Durão (1822?-1784), Domingos Caldas Barbosa (1738-1800), Basílio da Gama (1741-1795), Alvarenga Peixoto (1744-1793) e Silva Alvarenga (1749-1814).

Reúne o que de melhor produziu a poesia árcade e, de certo modo, ajuda-a a recuperar um lugar que nem sempre lhe foi reconhecido pela crítica, especialmente a da primeira metade do século XX, que viu com prevenção a estilização e o apego de seus poetas a cânones não só portugueses como italianos, esquecendo-se de que, à época, o Brasil não existia como nação organizada e, na verdade, éramos todos portugueses.

Como assinala Paulo Franchetti na apresentação, o Arcadismo, embora não tenha recebido a fortuna crítica e a recepção entusiasmada com que o Barroco tem sido contemplado nos últimos anos, já pode ser visto de modo mais favorável. Além disso, o próprio movimento de constituição de agremiações intelectuais, as famosas academias, diz o professor, “parece mais simpático, quando se considera que o uso dos pseudônimos e a valorização do talento como único requisito para admissão dos membros encenavam, na sociedade estratificada do século XVIII, o ideal de uma aristocracia de espírito e não de sangue”.

Para isso, muito contribuíram os recentes estudos de Jorge Ruedas de la Serna, Vania Pinheiro Chaves, Ivan Teixeira, Alcir Pécora, Melânia Silva de Aguiar, Sérgio Alcides, Ronald Polito, Joaci Pereira Furtado, José Ramos Tinhorão, Luís André Nepomuceno e, se permitem a pouca modéstia, a biografia de Tomás Antônio Gonzaga que este articulista escreveu.

III

Já Antologia da poesia romântica brasileira, com seleção e notas de Pablo Simpson, Pedro Marques e Cristiane Escolastico Siniscalchi, é um volume mais encorpado, em razão mesmo da necessidade de abranger maior número de autores. O período, a rigor, vai de 1836, quando o poeta Gonçalves de Magalhães (1811-1882) publicou um ensaio na revista Niterói, editada em Paris, lançando as idéias de um programa para a edificação de uma literatura genuinamente brasileira, sob a influência da natureza americana, até meados da segunda metade do século XIX. E configura a presença do Romantismo em terras brasileiras.

Além do citado Gonçalves de Magalhães, o volume abrange autores díspares como Sousândrade (1832-1902), autor de “O Guesa Errante“, poema redescoberto pelos concretistas Augusto e Haroldo de Campos (1929-2003) a partir da década de 60 do século passado, e Gonçalves Dias (1823-1864), autor da antológica “Canção do exílio” e de alguns dos mais importantes poemas da lírica indianista brasileira.

Reúne ainda Luís Gama (1830-1882), com suas sátiras aos comportamentos, tipos e situações de sua época, Bernardo Guimarães (1825-1884), com sua poesia erótica e, às vezes, até pornográfica, Álvares de Azevedo (1831-1952), com sua fina e sepulcral poesia, Laurindo Rabelo (1826-1864), com sua poesia satírica e fescenina, Casimiro de Abreu (1839-1860), com sua lírica de tons suaves, Castro Alves (1847-1871), com seus versos grandiloqüentes em favor dos escravos, Fagundes Varela (1841-1875), com seus poemas religiosos uns, amorosos outros, de inspiração regional ou sertaneja, Juvenal Galeno (1836-1931), com seus versos francamente populares, e Junqueira Freire (1832-1855), com seus poemas de monge atormentado.

IV

Com seleção e notas de Pedro Marques, Antologia da poesia parnasiana brasileira apresenta poemas de 14 poetas, entre consagrados e outros menos conhecidos do grande público, mas não menos representativos do parnasianismo. Entre os consagrados, estão Olavo Bilac (1865-1918) e Machado de Assis (1839-1908), cuja produção como poeta acabou abafada pelo êxito de seus romances da última fase. Entre os menos afamados, estão Luís Delfino (1834-1910), B.Lopes (1859-1916) e Francisca Júlia (1870-1920), única mulher entre os poetas reunidos.

Lembra Franchetti na apresentação que o parnasianismo, em seu grande momento, ocupou lugar proeminente em jornais, revistas, conferências públicas e saraus burgueses, atraindo grande público para a poesia, o que, aliás, nunca haveria de se repetir, guardadas as devidas proporções no tempo. É de ressaltar ainda que, desde os primeiros tempos do Brasil independente, a literatura esteve comprometida com as questões vitais da nação, tendo assumido a bandeira da causa abolicionista.

Encerrada a questão da abolição da escravatura -- embora a situação dos ex-escravos nunca tenha efetivamente preocupado o governo e as classes dirigentes --, e estabelecida a República, desapareceram os grandes temas épicos. Assim, a poesia refluiu a um exclusivo cultivo artístico, calcado em movimentos europeus posteriores ao Romantismo.

Embora fique clara a influência do movimento francês, os parnasianos brasileiros procuraram um caminho próprio, o que explica o fato de terem caído no gosto da população ou pelo menos daquele público letrado que se interessava pelas coisas do espírito. Com certeza, tal foi a importância do lugar que essa geração ocupou na sociedade de seu tempo que a ela se deve a criação da Academia Brasileira de Letras, como lembra Pedro Marques na sua introdução.

Se muitas vezes os modernistas atacaram sem medidas o parnasianismo, isso se deu por conta da necessidade que tinham de oferecer alternativas para o que consideravam fórmulas gastas dos parnasianos. Mas nunca deixaram de reconhecer a importância histórica do movimento.

V

Com seleção e notas da professora Francine Ricieri, doutora em Teoria e História Literária na área de Literatura Brasileira pela Unicamp, Antologia da poesia simbolista e decadente brasileira reúne nove poetas de um movimento que, ao não alcançar a repercussão do parnasianismo, agrupa nomes ainda pouco conhecidos do público. Diz a organizadora em aprofundado estudo introdutório à guisa de prefácio que esses poetas, como jamais pretenderam servir à causa nacional, “foram usualmente representados como alienados, desenraizados, fúteis, irracionalistas, incompreensíveis, colonizados”.

Seja como for, como observa Franchetti na apresentação, a poesia simbolista reserva muitas surpresas “e a leitura desta antologia por certo ajudará a reverter a idéia de desinteresse que se colou à produção simbolista”. Para que esta frase não fique aqui assim um tanto solta, é de lembrar que Franchetti, autor de As aves que aqui gorjeiam -- a poesia do Romantismo ao Simbolismo (Lisboa, Cotovia, 2005), navega por estas águas com mão de mestre, como diria Massaud Moisés.

Missal e Broquéis, publicados no Rio de Janeiro em 1893, por Cruz e Sousa (1861-1898), teriam sido a primeira manifestação em livro no Brasil do Simbolismo ou Decadentismo. Por isso, além de peças de Cruz e Sousa, que abrem o volume, a organizadora recolheu poemas de Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), B.Lopes (1859-1916), Eduardo Guimaraens (1892-1928), Maranhão Sobrinho (1879-1915), Pedro Kilkerry (1885-1917), Da Costa e Silva (1885-1950), Emiliano Perneta (1866-1921) e Alceu Wamosy (1895-1923). É de notar que B.Lopes aparece aqui também porque sua poesia tanto tem traços parnasianos como simbolistas.

Desses, o mais visível nos dias de hoje é Da Costa e Silva, em razão do trabalho de resgate de sua poesia encetado por seu filho, o poeta Alberto da Costa e Silva, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, que tratou de republicar a produção do pai, embora Alphonsus de Guimaraens e Emiliano Perneta também sejam frequëntemente lembrados em estudos acadêmicos.

Outro bem conhecido seria Augusto dos Anjos (1884-1914), cuja poesia apresenta recursos e temas relacionados à poesia simbolista, mas a organizadora preferiu deixá-lo de fora da antologia, argumentando que incluí-lo seria fornecer do poeta “uma visão que não condiz com a linha peculiar e tão característica em que sua poesia se definiu”. Até porque a produção de Augusto dos Anjos guarda igualmente traços parnasianos e até mesmo pré-modernistas.

Por isso, seria aceitável que alguns especialistas viessem a questionar a sua exclusão, mas a verdade é que o estudo introdutório de Francine Ricieri é tão bem embasado e didático e suas extensas notas de leitura tão esclarecedoras que essa se torna uma tarefa extremamente difícil e ingrata.
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ANTOLOGIA DA POESIA BARROCA BRASILEIRA, 157 págs., 2007, R$ 18; ANTOLOGIA DA POESIA ÁRCADE BRASILEIRA, 126 págs., 2007, R$ 18; ANTOLOGIA DA POESIA ROMÂNTICA BRASILEIRA, 286 págs., 2007, R$ 22; ANTOLOGIA DA POESIA PARNASIANA BRASILEIRA, 227 págs., 2007, R$ 22; ANTOLOGIA DA POESIA SIMBOLISTA E DECADENTE BRASILEIRA, 223 págs., 2008, R$ 22. Apresentação de Paulo Franchetti. São Paulo: Companhia Editora Nacional/Lazuli Editora. Site: www.editoranacional.com.br
E-mail: editoras@ibep-nacional.com.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
 

Simbolismo e hermetismo (*) ---->
LETRAS

Adelto Gonçalves (*)

I

Responder ao que Anna Balakian (1915-1997), antiga diretora do Departamento de Literatura Comparada da Universidade de Nova York e reconhecida scholar na área de Simbolismo e Surrealismo, questionou há quase quatro décadas foi o que moveu os participantes do Simpósio Hermetismo e Simbolismo, realizado nos dias 9 e 10 de dezembro de 2004, na Universidade de Saragoça, Espanha, sob a coordenação dos professores Luis Beltrán Almería e José Luis Rodríguez García.

E o que questionou Anna Balakian? Quem conhece o seu livro El movimiento simbolista (Madri, Guadarrama, 1969) sabe que a teórica tentou encontrar respostas para várias questões, como saber se o Simbolismo constituiu uma reação ao Romantismo. Ou se foi uma continuação da estética do Romantismo. Ou ainda se foi um movimento paralelo ao Naturalismo ou sua síntese.

Mais: quais foram os seus pontos de contato com outros conceitos similares, como decadente, impressionista, hermético e imagista? Até que ponto teve uma origem comum com o Surrealismo? Como e onde manteve melhor sua originalidade frente a outros movimentos literários? Qual foi a contribuição do Surrealismo e do Modernismo?

Além dos dois professores organizadores, mais oito estudiosos foram convidados para dar respostas a tais questões, sete espanhóis e um brasileiro, Massaud Moisés, professor titular aposentado de Literatura Portuguesa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e autor de uma vintena de obras, entre as quais se destacam os três volumes de As estéticas literárias em Portugal (Lisboa, Caminho, 1997-2002). As respostas a tantas interrogações podem ser encontradas nos dez ensaios reunidos em Simbolismo y Hermetismo: aproximación a la modernidad estética, publicado por Prensas Universitarias de Zaragoza em janeiro de 2008.

No ensaio que abre o volume, “Hermetismo y Simbolismo. Aproximaciones”, Massaud Moisés observa que é difícil afirmar que a poesia de William Butler Yeats (1865-1939) e Fernando Pessoa (1888-1935) seja fruto da crença esotérica e não produto de uma inclinação do intelecto e da sensibilidade que encontra no hermetismo a atmosfera mais adequada para a sua eclosão. “A mais de um século de distância, tem-se a impressão que o progresso da arte poética desde o Romantismo se encaminhara, de algum modo, para o que mais tarde se converteria na arte simbolista. Isto aconteceria, antes ou depois, por uma espécie de imperativo histórico que substituía a ordem clássica pela aventura romântica como já observara Guillermo de Torre (1900-1971), e que refutava o absoluto inerente à arte vinculada aos clássicos greco-latinos em favor do individualismo procedente da ascensão da burguesia à pirâmide social, em conseqüência do declínio das velhas monarquias”, diz (pp.43-33).


II


Dentro dessa mesma linha de pensamento, em “Ficcionalidad y Hermetismo”, Antonio Garrido Domínguez, professor de Teoria Literária da Universidade Complutense de Madri, lembra que o Simbolismo constitui uma realidade inerente à literatura hispano-americana contemporânea, fato a que não é alheia a atração que sentem seus cultivadores pelo fantástico em suas diversas manifestações, como os argentinos Jorge Luis Borges (1899-1986), Adolfo Bioy Casares (1914-1999), Julio Cortázar (1914-1984) e guatemalteco Augusto Monterroso (1921-2003).

Como exemplo, porém, Garrido Domínguez cita quatro textos curtos do mexicano Juan José Arreola (1918-2001), La mijada, El prodigioso miligramo, El guardagujas e Parábola del trueque, que constam de Confabulario (México, Editorial Joaquín Mortiz, 1975), livro que apareceu pela primeira vez em 1952. E o fez muito bem. Porque ninguém mais que Arreola pode bem representar o realismo fantástico, esse ramo do Simbolismo, na literatura hispano-americana, movimento que, diante da impossibilidade do homem de aceder ao conhecimento de si mesmo, procurou radicalizar a busca do lado oculto da realidade.

Diz o ensaista que, para aceder a nós mesmos, é preciso recorrer ao “êxtase”, ou seja, situar-nos fora de nós mesmos, e tal estágio só se consegue partindo do real, mas transgredindo-o por meio do “como se” ou, o que é o mesmo, extendendo-nos mais além de nós mesmos e projetando-nos de nossas possibilidades. Foi o que sempre fez Arreola, um contista de uma originalidade sem par nas literaturas espanhola e hispano-americana, que, na brasileira, só poderia ser comparado a Murilo Rubião (1916-1991), autor de O ex-mágico (1947), O pirotécnico Zacarias (1974), O homem do boné cinzento e outras histórias (1991) e outras obras que foram rotuladas como realismo fantástico.


III


Para bem ilustrar o que afirma, Garrido Domínguez faz um resumo de El prodigioso miligramo, que, em linhas gerais, conta como o autoritário regime das formigas se encontra primeiro com a dissidência de uma formiga que decide transportar um chamativo miligramo (milésima parte do grama), em vez de levar a carga assinalada para o sustento coletivo. O castigo imposto é a morte da formiga dissidente, mas, como ocorre aos mártires de uma causa, a morte da formiga que preferiu não renunciar as suas convicções desperta em suas irmãs de raça o imperioso desejo de imitar o seu comportamento até o ponto que a hierarquia se vê obrigada a condescender para evitar males maiores. Qualquer semelhança com agrupamentos humanos, obviamente, não é mera coincidência.

Em La migala, conto de pouco mais de duas páginas, um dos protagonistas também não é humano, mas animal, ou melhor, uma aranha gigantesca, pela qual o narrador se sente atraído a ponto de comprá-la de um saltimbanco numa imunda feira de rua. Levando-a para casa, certo dia, sente-se instado a libertá-la da caixa de madeira em que a comprara. Desde então, vive dias de horrores, pois não sabe nunca quando a gigantesca aranha pode aparecer para picá-lo. Compara-a, assim, a sua mulher Beatriz, companhia tão buscada quanto temida, exercitando uma problemática que Arreola sempre teve presente em seus relatos: a questão do relacionamento do casal dentro do matrimônio.

Já em Parábola del truque, são humanos os personagens do conto, embora as mulheres a que se refere o narrador mais pareçam andróides. Seja como for, o conto mantém a dimensão alegórica que caracteriza a maioria dos relatos de Arreola. Nesse conto, o povoado onde reside o narrador vê sua normalidade alterada com a chegada de um mercador que oferece um “produto” muito apreciado -- mulheres de grande beleza que brilham ao sol --, disposto a fazer um negócio aparentemente vantajoso para todos: trocar estas mulheres novas pelas esposas de cada um dos homens do lugar.

O resultado é previsível: não houve quem, seduzido pela novidade e pela promessa de prazeres infindos, não quisesse trocar sua mulher (já marcada pela passagem dos anos) por um daqueles seres novinhos em folha que o mercador oferecia. A única exceção é o próprio narrador, que prefere ficar com Sofia, sua mulher, arrastando, assim, a ira dos demais homens do povoado, todos inconformados com sua fidelidade à esposa.

Até mesmo Sofia desconfia dos motivos que teriam levado o marido a não trocá-la, considerando que não havia sido carinho o que o havia motivado a permanecer perto dela, mas apenas covardia e medo do futuro. Assim segue o curto relato até que os homens descobrem que haviam sido vítimas de um logro: logo as mulheres que haviam adquirido começam a perder a cor e a oxidar-se, feitas que eram de material ordinário.

A verdade simbólica que se esconde atrás desta parábola é que as aparências sempre enganam e que as conseqüências para quem se deixa seduzir por elas, sem levar em conta outras considerações, podem chegar a ser funestas.


IV


El guardagujas, o mais extenso dos relatos escolhidos por Garrido Domínguez, é também o mais ambíguo e o mais rico de conteúdo, ou seja, aquele que dá ensejo a um maior número de interpretações ou conclusões. A história -- que já foi chamada de kafkiana por alguns críticos -- representa um mundo às avessas, de sinais trocados, ao mostrar como funciona uma companhia ferroviária em que é ela mesmo quem decide o destino de cada passageiro.

Conclui-se, portanto, que é a Providência -- à falta de melhor definição -- que decide se o comboio virá ou não, que rumo seguirá, se levará os viajantes à estação desejada ou os abandonará no meio do caminho. Tem ainda esta todo-poderosa companhia agentes infiltrados que ouvem o que conversam os passageiros e acompanham todos os seus movimentos. Qualquer semelhança com aqueles regimes autoritários que infelicitaram por tantos anos não só as nações hispano-americanas, portanto, não é mera coincidência.


V


Salvo engano, dos livros de Arreola, em português do Brasil só apareceu um: Confabulário Total, publicado em 1968 pela Edinova, hoje obra rara. Se a memória não me trai, o conto Parábola del trueque também saiu numa edição especial dedicada ao conto hispano-americano pela extinta revista Status, de São Paulo, ao final da década de 70, dirigida por Gilberto Mansur.

Pela escolha de Garrido Domínguez -- que não é a de um mercador de letras, mas a de um professor que vê as letras com os olhos da paixão --, percebe-se com facilidade que o fato de Arreola não ter tido os seus demais livros, como Palíndroma, Varia invención, Bestiario, La feria, Arte de letras menores, Memoria y olvido, Hombre, mujer y mundo e Poemas y dibujos, entre outros, traduzidos ao português, constitui uma prova da indigência mental da maioria daqueles que se ocupam (ou se ocuparam) da atividade editorial no Brasil.

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SIMBOLISMO Y HERMETISMO: APROXIMACIÓN A LA MODERNIDAD ESTÉTICA, de Luis Beltrán e José Luis Rodríguez García (coordenadores). Saragoça: Prensas Universitarias de Zaragoza,184 págs., 2008.
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br

(*) Publicado no suplemento Das Artes, Das Letras do jornal O Primeiro de Janeiro, do Porto, dia 16/6/2008, pp.10-11.
 

Três poetas e uma nova editora ---->
LETRAS


Adelto Gonçalves (*)

I

Autor de A espera do nunca mais - uma saga amazônica, romance de 877 páginas (Belém, Editora Cejup, 1999), que ganhou em 2000 o Prêmio Lima Barreto/Brasil 500 Anos da União Brasileira de Escritores, e A noite é dos pássaros (Belém, Editora Cejup, 2003), o romancista Nicodemos Sena (1958) nasceu em Belém e passou parte de sua infância entre os índios maués, na região de fronteira entre os Estados do Pará e Amazonas. Em 1977, veio para São Paulo, onde se formou em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica e em Direito pela Universidade de São Paulo.

Há algum tempo radicado em Caraguatatuba, pequena cidade do Litoral Norte paulista, está agora empenhado em colocar em funcionamento uma casa editora fora do eixo Rio de Janeiro-São Paulo, a Associação Cultural LetraSelvagem, tarefa, aliás, nada fácil. Para marcar o início do recém-criado selo editorial LetraSelvagem, acaba de lançar três livros de poesia: Anima animalis: voz de bichos brasileiros, de Olga Savary, com gravuras de Marcelo Frazão; O homem deserto sob o Sol, de Edivaldo de Jesus Teixeira; e Tratado dos anjos afogados, de Marcelo Ariel.


II


Também nascida em Belém, mas radicada no Rio de Janeiro há décadas, Olga Savary (1933), ficcionista, ensaísta, antologista, tradutora e jornalista, já ganhou 40 prêmios nacionais de literatura. Traduziu mais de 50 títulos de escritores como Jorge Luís Borges (1899-1986), Octavio Paz (1914-1998), Pablo Neruda (1904-1973), Federico García Lorca (1898-1936), Mario Vargas Llosa (1936) e outros. Com sua poesia traduzida para América Latina, Europa, Estados Unidos, China e Japão, dá palestras em congressos e universidades do Brasil e do exterior. Fundadora do lendário semanário O Pasquim, do Rio de Janeiro, em 1969, recebeu o Prêmio Internacional Brasil-América Hispânica de 2007 pelo livro Berço esplêndido e o Prêmio Josué Montello da Academia Brasileira de Letras por um romance ainda inédito.

Anima animalis é o seu 19º livro de poesia, ao qual acrescentou o subtítulo Voz de bichos brasileiros. O livro, que inclui nove hai-kais e um poema longo, com versões em espanhol, finlandês, francês, inglês e italiano, nasceu de uma idéia que teve em 1996, quando o gravador Marcelo Frazão (1964) a convidou para traduzir em texto imagens de animais que ele havia produzido usando as técnicas da gravura em xilo e metal. Como eram animais europeus, a poeta logo imaginou que a vasta fauna brasileira poderia oferecer maiores e mais exóticas opções, como o tamanduá, o beija-flor e o lobo-guará (do hai-kai abaixo):

Do meu alvo espero
De longe nem chego perto
Desconfiado e alerta.

Daí nasceu este livro em que suas peças poéticas, como seria de se esperar de Olga Savary, “dizem, na medida justa da metáfora lapidada pela concisão, que entre palavra, imagem e leitura há um templo onde se ancorar o pensamento em busca dos sentidos sempre abertos, desde que haja o velho e conhecido desejo de ir além das clausuras do espaço e do tempo”, como observa no prefácio Christina Ramalho, doutora em Semiologia pela Universidade do Rio de Janeiro e professora de Teoria Literária da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Se mais fosse preciso acrescentar, seria para dizer que Olga Savary é uma poeta consagrada e amadurecida, que já não necessita de maiores apresentações. Nicodemos Sena não poderia ter escolhido melhor um autor para abrir a coleção Sentimento do Mundo de sua nova editora, à qual, em 2009, deverão ser acrescentados Pablo Neruda e Matsuo Bashô (1640-1694). Para 2009, a LetraSelvagem anuncia também o início de uma coleção de prosa de ficção (novelas e romances), além de uma coleção de ensaios, que deverá ser inaugurada por Octavio Paz.

III



Juiz federal do Trabalho radicado em Mogi das Cruzes, interior de São Paulo, Edivaldo de Jesus Teixeira (1957) nasceu em Centenário do Sul, no Paraná. Formado em Direito, exerceu a profissão de advogado durante vários anos, antes de fazer concurso para a magistratura. Autor de três livros de poemas (dois em edição de autor), diz que a sua poesia vem antes do Direito, explicando que sua obra é escrita sob uma ótica existencial. O autor já dispõe de outro livro praticamente pronto: A inesperada música subterrânea, que ainda não tem previsão de lançamento.

O homem deserto sob o Sol, segundo Teixeira, mostra suas reflexões sobre o homem e o mundo e muitas de suas influências literárias, como Gabriel García Márquez (1928) e Jorge Luís Borges:

(…) Miseráveis!
Deles não serão os meteoros
nem a luz do outono.
De ti não passarão os ventos de Macondo.
Como suportas a dor
e todos os seres vivos suportam a dor
estás plena de quietude e gelo.
Nas pedras. Nas galáxias.
Em Getsêmani!

(….) Vislumbro-o -- paralelo tempo-espaço? --
em águas não idênticas
que em vão navego
afiando rudes facas,
e como Borges, cego,
reelaboro o sonho
até o labirinto,
onde a solidão é absoluta
e o tempo extinto. (…)

IV


Nascido em Santos, Marcelo Ariel (1968) mora em Cubatão, terra do romancista Afonso Schmidt (1890-1964), que lá nasceu e viveu antes de a área ter sido transformada em pólo industrial. A Cubatão que conhece, portanto, pouco tem da idílica Cubatão de Schmidt, mas os seus versos procuram denunciar o avanço descontrolado da insânia fabril que atraiu desesperados de todos os quadrantes do Brasil, especialmente nordestinos, a partir da construção da Via Anchieta no começo da década de 40 e da implementação da indústria siderúrgica nas décadas de 50 e 60.

Ariel está em seu segundo livro, mas, a rigor, Tratado dos anjos afogados é o primeiro que sai por uma editora estabelecida e começa a ganhar espaço na mídia porque o de estréia foi um livro artesanal, distribuído entre amigos. Como para o segundo livro juntou material do primeiro e peças mais recentes, pode-se dizer que ambos mostram exatamente o confronto entre o mundo poético e o mundo real, ou seja, a natureza da Serra do Mar, do outro lado do Rio Cubatão, e as fábricas e suas chaminés que rasgam os céus atirando ao ar fuligem e chamas.

Tanto que o título do livro é uma referência ao Rio Cubatão, que antes era puro -- pelo menos ao tempo em que os jesuítas e, depois a Coroa portuguesa mantinham ali uma fazenda e um pedágio para as cargas que desciam e subiam a Serra ao lombo de burros, bestas, índios e africanos -- e, hoje, está morto e infestado por mercúrio, pó da China e outras substâncias cancerígenas, apesar da retórica oficial que prega que Cubatão deixou de ser o Vale da Morte da década de 80. Não é à toa que um dos poemas do livro é dedicado “ao menino que nasceu sem cérebro e o menino que nasceu sem braços e as pernas em Cubatão”.

A exemplo de Paulo Lins (1958), autor do romance Cidade de Deus (São Paulo: Companhia das Letras, 1997), oriundo de espaços periféricos e conflagrados em que o poder do Estado há muito foi substituído pelo poder de facções armadas pelo dinheiro do tráfico de drogas, Marcelo Ariel vem de uma “perigosa” linhagem de escritores, como diz o seu editor, o escritor Nicodemos Sena, relacionando os nomes de Jean Genet (1910-1986), Louis-Ferdinand Cèline (1894-1961), Tennesse Williams (1911-1983), Máximo Gorki (1868-1936), Lima Barreto (1881-1922) e Plínio Marcos (1935-1999).

Ou seja: Ariel faz parte da família daqueles que fazem literatura daquilo que de pior a sociedade humana produz. É por isso que muitos de seus poemas são dedicados a chacinas -- a morte de jovens que, sem acesso à educação formal ou, apesar dela, atiram-se pelos caminhos do crime e acabam assassinados por bandidos ou policiais a soldo de comerciantes, traficantes ou políticos -- ou a presídios, reproduções pioradas do inferno imaginado por Dante Alighieri (1265-1321). Um exemplo dessa vida que corre nos porões da sociedade e que quase nunca submerge à flor da literatura é este poema, “Jardim Costa e Silva-Cubatão”, em homenagem a um bairro degradado daquela cidade:

(…) Para comemorar
o delegado
oferece um copo de conhaque
para o avião da morte
e olha para mim
pensando em nada,
Draculino é preso
ainda dando as cartas,
antes de ir dormir
(Jogando buraco)
continuem esse jogo,
ele diz…
(Depois no pau de arara reza:
Porra, não fui eu que matei o Sol, foram os homens.)
Draculino é solto
passa na rua e reza de novo para o ar:
É a maior injustiça… o Sol morto e
os homens vivos.


Não se imagine, porém, que Ariel seja um poeta intuitivo. Leitor contumaz, é dono de um sebo itinerante, atividade de que sempre tirou o sustento e que lhe permitiu conhecer uma série de poetas e romancistas que acabaram por influenciar o seu trabalho poético que já vai para mais de duas décadas. Por isso, outro aspecto marcante de sua poética, como assinala o poeta Ademir Demarchi (1960) na apresentação que escreveu para este livro, “é o de uma escritura de cunho filosófico, metafísica, que questiona o tempo todo a essencialidade e a condição humana, que pode se dar por diálogos entre escritores e filósofos, fragmentos dramáticos, ou em poemas que remetem a livros, autores, filmes”. Uma dessas interlocutoras é a poetisa, cronista e tradutora portuguesa Adília Lopes (1960), a quem o poeta no livro escreve duas cartas-poemas.

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ANIMA ANIMALIS VOZ DE BICHOS BRASILEIROS, de Olga Savary (poesia) e Marcelo Frazão (gravura). Caraguatatuba-SP: LetraSelvagem, 151 págs., 2008.
O HOMEM DESERTO SOB O SOL, de Edivaldo de Jesus Teixeira. Caraguatatuba-SP: LetraSelvagem, 104 págs., 2008.
TRATADO DOS ANJOS AFOGADOS, de Marcelo Ariel. Caraguatatuba-SP: LetraSelvagem, 216 págs., 2008. E-mail: letraselvagem@uol.com.br
Site: www.letraselvagem.com.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
 
 
 
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